De todas as consequências da vida no armário, nada é tão devastador quanto a necessidade de mentir. Fingir ser o que não se é, aprender a educar gestos e olhares, mentir para amigos, criar histórias, esconder sentimentos, anseios e dúvidas. Vestir sempre, a cada dia, uma máscara de algo que não se é e nem se sente.
Para alguns a vida no armário é a única alternativa de sobrevivência. Sabem, no mais íntimo, que quebrar aquela porta, significa romper com todos as amarras que o deixam seguro: serão excluídos da família, perderão emprego, amigos. E então eles aprendem a fingir. Aprendem a rir das piadas homofóbicas, a esconder os olhares de interesse, negar a atração por aquele amigo da sua irmã, conter-se, mesmo bêbado, para não "dar pinta". Aprendem a ter sempre uma história de reserva, para justificar sua presença naquele lugar de pegação. Aprendem a virar o rosto na rua, ao encontrar aquela transa da última noite. Se lembram de não estar tão perto dos outros para que ninguém perceba a verdade.
Mentem tanto e tão frequentemente que um dia se percebem presas daquela história que criaram. Automatizam gestos, risos, olhares e toques. Vivem num estado permanente de tensão. E não conseguem estabelecer vínculos duradouros nem de amizade nem de amor, por que onde nasce a mentira não se cria laços. Eles podem até amar, mas sempre fica a dúvida se são amados pelo que são ou pelo que dizem ser.
Não é fácil sair do armário. Nem é um movimento que se possa fazer pelo outro. E não acontece de uma hora para outra, apenas pelo desejo. Atitudes internalizadas, anos de negação, o medo da reação das pessoas e as próprias inseguranças não desaparecem só por que se disse "sou gay". Não se dorme no armário, agindo como hétero e fingindo 24h por dia e se acorda sem medo de andar de mãos dadas ou beijar em público. As armaduras usadas não vão desaparecer como mágica.
Eu não acredito que existam fórmulas. E não acho que alguém tenha o direito de dizer quando, como ou para quem você precisa dizer que é gay. O que eu sei é que o armário tem consequências devastadoras. Ninguém consegue ser feliz de VERDADE, vivendo uma MENTIRA eterna. As consequências dessa escolha, só você pode decidir se está disposto a pagar.
"A vida no armário destrói a pessoa. Você aprende a mentir como uma segunda natureza. O seu primeiro movimento é mentir. Para você, para sua família, para os amigos, para o chefe no trabalho, para a namorada. E uma hora você mentiu tanto, que já nem sabe onde está a verdade. Você já não pensa para tomar algumas atitudes, mas elas estão tão internalizadas que você faz sem perceber. E se magoa e magoa aos outros. Num ciclo sem fim de dor"

13 comentários:
Oi Lilah. Viver no armário é algo difícil, e sair dele é mais difícil ainda. Mas isso não significa que seja impossível. Dentro do armário de cada um existe uma série de fantasmas que muitas vezes são criações da própria pessoa. Conhecemos muitas gente que antes de se assumir perante a família e a sociedade acreditavam que seriam julgados, porém, o que aconteceu foi exatamente o contrário. Muitos são os exemplos de pessoas que assumiram a sua homossexualidade e vivem felizes. Na verdade, tudo depende da nossa atitude. Cada um de nós tem a sua realidade, e essa realidade é que vai fazer a diferença. Nunca podemos antecipar aquilo que os outros pensam a nosso respeito, porém, podemos antecipar a forma como nós vamos reagir. Precisamos olhar mais para nós e menos para os outros, pois somos nós que vivemos nossas vidas. Nem sempre é fácil, mas os exemplos estão aí para serem seguidos. A nossa dica é: Para quem já saiu do armário e vive feliz, ajude aquele que não consegue sair. E aquele que ainda não saiu, peça ajuda para que já saiu e seja FELIZ! Abraços.
Ola!
Muito bom esse blog!
Fiz um texto falando sobre sair do armario!
Ve la depois!
Grande abraço!
http://brunopassarinho.blogspot.com/2011/02/saindo-do-armario.html
Bruno Alves
Lilah querida, sabes que não havia ainda pensado sobre isso com profundidade, o quanto fica de dor, mágoa e vício de todas as mentiras que se obrigam a contar.
Realmente é necessário ter força para sair do armário e vencer todos os resquicios que sobraram do tempo que ficaram lá dentro.
Como sempre foste mágica em tuas palavras e te admiro muito por isso.
Beijos
Toda essa dor é causada pela falta de conhecimento de uma sociedade hipócrita que não tem a coragem de viver plenamente o que sente. Agradeço pelas suas palavras, pois é muito importante vê uma MÃE falando e defendendo o mundo gay. mil beijos.
o seu blog é otimo, vc escreve de forma clara e simples..
parabéns...
Bem sei o que é viver no armário, pois somente aos 18 anos sair dele...Tinha medo dos amigos, medo dos colegas de trabalhos e medo da familia. As vezes eu sentia uma vontade grandioso de conversar com alguém, mas não tinha ninguém para me da apoio.
Mas, passou...hoje sou mais feliz.
Gostei muito dessa postagem. Se possível, permita-me a postar em meu blog depois.
abraços
de luz e paz
Hugo
Lilah,
Obrigado pela permissão. Vou posta-lo na segunda-feira.
abraços
Viver no armário é terrível. Digo por experiência própria. Creio que vivo dentro e fora do armário. Fui expulso da família por terem descoberto minha orientação sexual, e saí de casa para poder viver com meu companheiro que é bem mais velho que eu, aqui no interior de SP. Temos amigos gays que sabem perfeitamente de nós, mas para a grande maioria somos pai e filho. Não sei ainda como resolver esta mentira, pois as consequencias sao complicadas. Ainda tenho medo de assumir nossa relação perante os outros, apesar de vivermos juntos e debaixo do mesmo teto há 7 anos. Não temos o que esconder, pois vivemos tranquilamente como qualquer casal, mas de certa forma vivemos isolados da sociedade em geral por não podermos contar que vivemos juntos como companheiros. De minha parte adoraria que todos soubessem da normalidade de nossas vidas, mas a mentalidade pequena de interior e o preconceito ainda prevalecem nas ruas e lugares.
Isto ultimamente me causa muito sofrimento, pois estou cansado, depois de viver tantos anos ao lado de quem se gosta, ter de pisar em ovos e tomar cuidado com o que se diz, inventar historias e frequentar apenas lugares onde não se leve um tapa ou seja expulso por andar de mãos dadas ou fazer um simples carinho. Não se trata de obscenidades, trata-se de de um casal como qualquer outro.
Sair do armário é uma coisa complicada, mas viver dentro dele é ainda pior. Estou tentando fazer isso gradativamente, e tem dado bastante resultado. Assim como muito, tive medo das consequências que causaria dentro de casa, mas cheguei ao ponto de não suportar mais e tive que contar, e a reação da minha mãe foi completamente diferente da que imaginava, ou seja, fazia uma 'tempestade dentro de um copo d'água' na minha cabeça. Meu irmão ainda não sabe, mas estou me preparando para comunicar a ele, vai ser complicado (ja que ele se acha o 'homem da casa' depois que meu pai faleceu), mas o primeiro passo ja foi dado.
Parabéns pelo blog, sua maneira clara de escreve é muito inspiradora.
Vim visitar o seu blog a convite do meu amigo Hugo,como vocês dividem a mesma postagem e eu já a li no blog dele eu só queria salientar um fato: Os Gays são tudo de bom,fiéis,generosos,educados e gentis.
E roda a baiana como qualquer uma de nós.
Eu tenho um amigo Gay,seu nome é Tiago uma graça de pessoa que só entrou na minha vida para acrescentar, é ele que recheia de coisas boas a minha cabeça quando esta se encontra vazia.
Beijo grande.
Amei teu blog.
Parabéns.
Beijos
Adorei seu blog. É muito bom poder ler a respeito, sob uma outra perspectiva - a dos pais.
Sou lésbica, tenho 28 anos e há alguns dias fui questionada pela minha mãe sobre minha homossexualidade. A única coisa que consegui responder foi "não" - infelizmente.
Voltarei outras vezes.
bjs
Mãe Lilah,
Depois veja em meu blog o debate que surgiu a partir da postagem do seu texto. Muitas pessoas ficaram de passar aqui depois.
Obrigado mais uma vez Lilah, pela permissão de ter um escrito seu por lá.
Um forte abraço
de luz e paz.
Hugo
Ótimo texto. Sinto as vezes que não sai do armário completamente. Mesmo morando com minha esposa ha 1 ano, ainda tenho receio de andar de mão dadas. Tenho muito medo da violência, fico sem jeito com tanta gente me olhando feio... Enfim, lindo texto. Venho aqui sempre, adoro tudo que você escreve. Parabéns.
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