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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Mãe, eu sou gay...

Postagem Publicada Originalmente em Tramas Tranças e Bobagens, em 19/07/2010





Eu não sei quando eu percebi que meu filho era gay. Nem me pergunte como ou por que, com certeza eu não saberia dizer. Talvez venha na descrição do trabalho de mãe: “sempre saber o que o filho sente”. Vai ver está junto com “prever o tempo” e “detectar mentiras”. A questão é que eu soube acho até que antes dele mesmo realizar isso.

Lucas é o terceiro, filho do segundo casamento, fruto de uma gravidez difícil e muito desejada. Foi, desde muito pequeno, uma criança calma, tranquila, que nunca deu nenhuma dor de cabeça. Os irmãos estavam quebrando a casa? Lucas estava no quarto brincando com lego. Os irmãos davam nó no pelo do cachorro e comiam a ração(juro que faziam isso!)? Ele limpava a sujeira e dava bronca nos dois. Era bom aluno, lutava caratê, gostava de jogar videogame e torcia para o Flamengo, como qualquer criança de bom gosto (rsrs). Mas, eu olhava para ele, com 10 ou 12 anos e uma voz me dizia que ele era diferente dos irmãos.

Enquanto o do meio namorava qualquer coisa com saias, o mais velho engatava um namoro longo, eu via Lucas sozinho, cada vez mais e mais isolado. Aos poucos o isolamento virou tristeza. A proximidade que sempre tivemos virou distância. O menino doce ficou agressivo, impaciente, sem tempo para a família e os amigos. O pai colocava tudo na conta da “aborrescência”, mas eu via um pouco mais que isso. E comecei a ter medo.

Que ninguém se engane, não foi um processo simples. Não sou nenhuma mulher maravilha. Tive medo do que iam pensar. Tive medo do que a família ia dizer. Questionei minha própria competência como mãe, me perguntei se havia falhado em alguma coisa, se de alguma forma era minha “culpa”. Ah, mães são especialistas em culpa! Nos culpamos sempre, por tudo e qualquer coisa. Tive dúvidas. Temi pela reação do meu marido, machista como a maioria dos brasileiros, ao descobrir que o único filho homem era gay.

A certeza veio ao descobrir revistas em seu quarto. Toda mãe de adolescente já encontrou playboy embaixo do colchão, muito antes de seus filhos terem idade legal para comprar. Eu encontrei homens nus ao invés de mulheres.

Talvez a melhor coisa que eu tenha feito foi não me sentar e esperar. Eu quis entender. Eu quis estar pronta para o dia que ele me contasse. Mais que isso, eu quis que ele soubesse que eu ouviria, que ele podia contar. Claro que no meio do caminho eu cometi enganos. Exagerei ao pressioná-lo, não muito discretamente, para me contar. Exagerei em livros, filmes, dicas e indiretas. Como ele diz hoje, ele não saiu do armário, eu chutei ele para fora.

Quando ele finalmente contou, não foi o pai que teve problemas, mas o irmão mais velho. Medo que os amigos achassem que ele também “era viado”. Não foi um tempo tranquilo. Nem um que deixou saudades, mas ele aprendeu a respeitar o espaço do irmão e no processo eles se tornaram mais amigos do que eram antes. E aprendeu tão bem, que sua madrinha de casamento é transex. Minha família descobriu sobre diversidade. Meu caçulinha, cresce hoje numa casa onde orientação sexual é só um aspecto da vida e não define nada.

Se você é mãe, pai, irmão... o que eu posso dizer é que aquela pessoa na sua frente dizendo “sou gay” é mesma que você trocou fraldas, ninou, levou para o parquinho. É o mesmo irmão que você jogou bola ou brincou de bonecas. É ainda o mesmo filho que lhe deu beijos melados. O mesmo irmão que dividiu o último biscoito. O mesmo sobrinho que brincou de cavalinho nas suas costas. É ainda a mesma pessoa. E ainda ama você do mesmo jeito.

Eu? Sou mãe de quatro meninos. Um deles, acontece gostar de meninos ao invés de meninas. Um deles é gay. Assim como um deles tem olhos azuis, o outro tem alergia a camarão e o quarto a vida me deu de presente, ao invés de ser gerado por mim. Só do jeito que Deus fez cada um deles. Absolutamente, perfeitos.

*leiam o post do O Liquidificador, que deu origem a esse post: AQUI

8 comentários:

Accácia disse...

Oi Lilah,
Gosto de conhecer o que a pessoa fala na primeira postagem!
E me emocionei com o que li aqui!
Engraçado,vc diz coisas sobre seu filho que vejo meu filho de 08 anos fazer:brincar de Lego,não dar trabalho,ser estudioso...
Imagino que tenha sido difíil tanto pra vc qt pra ele assumir essa posição!Há tanta gente homofóbica e que não aceita isso de forma alguma!
É memso de se preocupar.
mas que bom que vc o apoiou e mostrou que seja lá qual for a sua sexualidade,antes de mais nada ele é um ser humano.Merece e tem direito a respeito,amor,solidariedade!
gostei muito do que li aqui!
Estou te acompanhando e torcendo para que vcs sejam muito felizes e que enfrentem qq preconceito de cabeça em pé!Não nos envergonhamos de ter olhos azuis,não é?Porque nos envergonharíamos de ser homossexual?
Isso é mais um rótulo.
O que vale é o caráter!
E pelo visto isso vcs tem de sobra!
Um beijo
Accácia

Robson Rodrigues disse...

LINDO TEXTO, SINCERO E CHEIO DE VERDADE. SÃO AS PIORES E MELHORES PALAVRAS, DEPOIS QUE FALEI PARA MINHA MÃE, ME SENTI VITORIOSO COMO SE NADA PODESSE ME DERRUBAR. MINHA MÃE ENTENDE E ME RESPEITA, POSSO CONTAR PARA ELA MEUS PROBLEMAS COM NAMORADOS, GAROTOS DAS FESTAS.... ACHO QUE FAÇO PARTE DA MINORIA, TOMARA QUE ESSA REALIDADE MUDE E QUE MAIS MÃES COMO VC E A MINHA DEEM O COLO PARA SEUS FILHOS EM UM MOMENTO TÃO DIFICIL COMO ESSE.

bJUS

P.S. ACABEI DE SEGUIR VC NO TWITTER SE POSSIVEL ME SEGUE LÁ TMB @ROBBSOON

Anônimo disse...

me apaixonei pelo seu blog.

Anônimo disse...

Oi Lilah.
Tentarei ser o mais breve possível. na verdade "acho" que já li tudo que você postou, chorei rios de lágrimas, me emocionei, revoltei e só tem me ajudado.
Eu tenho 30 anos, e este ano resolvi e contei a todos, claro como em todas família aconteceram várias coisas...
Me arrependo muito de ter demorado tanto e me enganado do jeito que me enganei só de medo de fazer minha família "infeliz"...
Hoje torço para que todos os jovens não se tranque num armário de aço como eu fiz, hoje dou minha cara a tapa, vou a fundo.
E o mais importante SOU FELIZ E TENHO MINHA MÃE ME APOIANDO MESMO QUE MORANDO EM OUTRA CIDADE.
PS: amo vc mesmo sem conhece-la
e-mail: scoot.mg@hotmail.com

●๋• Gαвяιєℓ Rєzєη∂є ●๋• disse...

Lilah, meus sinceros parabéns, vc é uma mãe como poucas, como a minha, que o único problema que teve, foi em não saber como lidar com um filho gay, já que nunca tinha tido um, ela buscou conhecimento, aprendeu e hoje em dia nossa vida é maravilhosa, ela me trata com todo amor do mundo e não tem vergonha de dizer que tem o filho gay. Se algumas mães soubessem como é importante o apoio e o carinho delas em um momento tão dificil, ainda posso me lembrar do medo, da incerteza das dúvidas, sem ter com quem conversar, com quem me abrir e olhava pra minha mãe e queria falar, mas vencer o auto preconceito é o primeiro passo para uma vida feliz. Parabéns pela sua atitude, pela sua determinação e acima de tudo pelo seu amor incondicional pelos seus filhos.

Meus sinceros votos de felicidades! Adorei seu blog, as post são interessantes e muito bem elaborados.

Anônimo disse...

Acabo de conhecer o teu blogue, dei uma olhada geral e decidi deixar registrado um comentário aqui onde tudo começou.

Chamou a minha atenção o fato de a autora não ser homossexual. Há diversos sites que tratam destas questões relativas a sexualidade, mas todos eles são assinados por gays.

Percebo que ocorreu uma evolução rápida no que diz respeito ao entendimento deste assunto. Os textos seguintes revelam engajamento, militância. Parabenizo você pela iniciativa.

Minha vida intima e secreta disse...

Ah como as coisas seriam (para mim) tão mais fáceis se existissem mais pessoas como você.
Sua franqueza é impressionante, mas você mostra algo essencial devemos nos desfazer dos preconceitos que temos... Um abraço.

Sidney Perantoni disse...

Chorei agora!!
é isoo é a pura vdd.