O atual sistema de proteção racial que temos no nosso país, que se não é perfeito tornou-se um passo importante no resgate de uma dívida histórica com uma parcela explorada de nosso povo, não nasceu do nada. A Lei Caó, a transformação de racismo em crime inafiançável, as cotas em universidades e o resgate da cultura negra e africana nesse país são frutos de um movimento organizado. São consequência de um movimento, lá nos anos 80 de resgate do orgulho de ser negro, do orgulho das tradições legadas ao país, de uma identidade de COMUNIDADE, que unida é mais forte que separada. E que foi as ruas exigir isso. Não apenas em passeatas ou protestos, mas numa revolução silenciosa e diária. No assumir características raciais marcantes, como penteados afro, ou usar roupas com cores da África, movimentos culturais e de arte e se posicionando enquanto grupo consumidor, que exigiu produtos e serviços voltados a sua especificidade.
Ninguém, nenhum órgão ou político, vai legislar para um grupo invisível. Diferente de negros, que não podem fingir ser brancos para serem aceitos, gays tem essa possibilidade. Podem se "heterossexualizar" senão assumindo uma vida hétero, mimetizando essa vida num discurso que fala em ser discreto para ser aceito. Heteronormatizar o movimento gay tem sido um discurso recorrente dentro da própria comunidade. Ele aparece quando se diz que não é preciso beijar na rua e ofender ninguém. Ou quando se defende que não é preciso esfregar a sexualidade na cara de ninguém. Aparece no desprezo aos afeminados que sujam a imagem sendo gays demais. Vem embutida nesse discurso discreto que prega que você desapareça na multidão e passe a ser parte da paisagem. Agindo e pautando sua vida por regras da sociedade heteronormativa.
O que muitos não percebem é que ao fazer isso, se reproduz dentro da comunidade gay, um padrão machista da sociedade. Que diz que o feminino (ou afeminado) é inferior, menos importante. Que despreza o passivo como menos macho e mais gay que o ativo. Que cria castas onde, quanto mais heterossexualizado eu parecer melhor. Seja gay, mas suma na multidão hétero sem que ninguém perceba que você gosta mesmo é de trepar com alguém do seu sexo! Só que é ISSO QUE INCOMODA ELES. E é isso, trepar com alguém do mesmo sexo, a ÚNICA coisa que TODOS os gays tem em comum. Não importa se você é macho alpha, barbie, bombadão, travesti, afeminado, bicha louca...invente o termo que você quiser. No fim, a única coisa que importa para homofóbicos é que você trepa com alguém do seu sexo!
Ah, eles podem fingir aceitar você. Desde que você aceite uma troca. Eu finjo que não me importo que você dorme com alguém do mesmo sexo e você faz o favor de restringir sua vida afetiva e emocional as quatro paredes da sua casa. Longe dos olhos da sociedade civilizada. Você finge que está tudo bem e eu vou fingir que não acho você uma aberração que deve ficar longe dos olhos dos bons cidadãos Sacou? Essa é a troca que você está fazendo!
Não. Você não precisa ser fã de Madonna e falar gírias para ser gay de verdade. Mas alguns falam. E alguns são afeminados. E eles NUNCA vão sumir na multidão. E eles estão no mesmo barco que você! Eles não são os inimigos. Eles não estão sujando a imagem da comunidade gay. Eles são TÃO GAYS COMO VOCÊ. Sem tirar nem pôr. Quem faz o que na cama não devia importar a ninguém, além dos dois envolvidos. E nem determina quem é mais gay.
Protestos, sites, paradas e afins são super necessários. Importantes e fundamentais para que possamos conseguir legislação adequada. Mas você quer fazer uma revolução hoje? Então seja gay. Não apenas dentro da sua casa, escondido nas boates ou atrás de portas fechadas. Mas seja você. Homem ou mulher, profissional, filho, amigo, jornalista, professor, afeminado ou não, masculinizada ou não, GAY. Na vida, como na cama. Por que só assim é possível sair da invisibilidade e dizer em alto e bom som: Eu existo. Viva com isso!

21 comentários:
ADOREI esse texto. Um dos melhores até hj.
Oi Lilah
A única discriminação que deve haver no mundo é contra a maldade humana.
Viva a diversidade.
Bjus
Lilah... desculpa o termo mas,
VOCÊ É FODA!!!!!
acho que o movimento gay só não teve mais sucesso justamente por essa "ruptura", por essa pirâmide existente no mundinho gls.
depois que me aceitei como gay, fiquei um pouco desapontado com isso.
mas um belo texto lilah, como sempre uma delícia de se ler.
beijos!
Mais um belo texto, mãe.
Quando me assumi gay eu tinha esse pensamento. Me preocupava em não ser gay demais, mas depois, com o tempo e o auto-conhecimento, desencanei. Afinal, eu sou fã da Madonna, gosto de fazer o carão da Beyoncé, gosto de imitar os passos da Gaga, gírias gays fazem parte do meu linguajar coloquial... por que reprimir tudo isso? Sou gay, todo mundo sabe, por que me preocupar em não parecer ser quem eu sou? E isso não me faz me sentir menos homem que qualquer outro, homo ou hétero. Fala-se tanto em comunidade gay, mas tudo o que menos temos é unidade.
É isso aê. Pra mim, não tem nada mais absurdo do que esse preconceito, digamos, interclasse.
Puta merda, encaramos a cada dia o preconceito que sofremos, isso devia no mínimo fazer com que não compartilhemos dos mesmos.
Ora, somos todos iguais ou não?
Parabéns Lilah.
Texto maravilhoso, como sempre, sensível e DIRETO ao ponto. Descortinando até os Tabus existentes dentro da própria comunidade GLBTS. É a primeira vez que eu faço um comentário no seu blog.
Essa "segregação" interna, no grupo gay é realíssima. Quantas vezes já não me vieram com a frase "ah, que se dane os outros, eu vou viver minha vida assim, todos tem preconceitos mesmo, então, desde que não seja comigo, tudo bem". Fico sempre muito bravo e desapontado com isso.
Também não posso deixar de citar o racismo que ainda escondido reina no nosso pais, e infelizmente, na minha família tbm. É incrivel ver as pessoas culpar os proprios negros pelo racismo, dizendo que "orgulho de ser algo" é querer se diferenciar. Ah, valha me DEUS.
Continue com o Nice Work. :*
Acho que todo gay,ao menos todo gay que tem consciência dessa "hierarquia", de certa forma se desaponta com isso Leonardo...
Ótimo texto, frequentarei o blog com mais frequência ^^
Mais um ótimo e importante texto, Lilah!
Nessa última festa de fim de ano tive q ouvir esse tipo de comentário do cunhado do marido...e todos ao redor balancando a cabeca em concordancia... "- Trabalho com dois caras gays lá na empresa..mas tudo bem, nada contra, viu, eles nem parecem gays pq sao discretos e tal...mas tem um outro lá q é muito mulherzinha, ah, nao, isso nao dá pra aguentar, poxa, nem chego perto...."
Ou seja, ele ñ tem nada contra gays, desde q se comportem discretamente dentro do mundo e modelo hetero de ser.... Me poupe ! Mas é isso, cabecinha cabecinha de amendoim...por essas e outras sempre ganho mais ficando no quarto lendo um livro durante essas reunioes familiares...Humf!
Bjkas!
Querida Alma Magra em Cristo
Vc está de parabéns por incentivar a luta contra o preconceito.
Santo Ósculo em seu coração.
Irei colocar o link de seu blog no meu.
Lilah,
Me impressiono sempre com os seus textos ... Deve ser por ser professora e provavelmente refletir e aprender constantemente sempre devem ter feito parte da sua rotina.
Vou colocar seu mini banner no meu blog.
Bjs e parabéns .
ARRAZOU!
Visibilidade é a palavra de orgem. Gostem muito do paralelo com a comunidade negra. Temos que ampliar a noroiedade dos homossexuais na sociedade para tentar desconstruir essa visão tacanha que paira contra os gays.
A heteronormatividade só será revertida quando as pessoas se convencerem de que os gays existem, em suas multiplas facetas, e que nada poderá reverter isso.
Por outro lado, terá que haver uma aceitação do próprio homossexual, externalizando a sua sexualidade da melhor forma possivel. Seja afeminado ou masculinizado, no final, como você bem disse, todos fazemos sexo com iguais, e nada mudará se não vivermos com liberdade e sinceridade.
PARABÉNS pela abordagem! bjoxxxxxxxx
Lilah,
Excelente texto...mais uma vez, suas palavras me tocam.
Já peguei várias brigas com isso...inclusive dentro do ambiente escolar, pois alguns professores tratam os travestis com "aquela coisa da 7ª série". Como coordenador pedagógico, aproveitei por muitas vezes, os horários de reuniões pedagógicas para explorar o tema, e sempre questionava o respeito que tratavam alguns gays e outros não...e graças a isso, muitas barreiras já superei e estou superando é difícil, mas não é impossível.
Brilhante texto...amo viver por aqui.
abraços
Oi cai aqui por acaso. Achei seu texto lindo. Apesar de ter sentido como um tapa bem dado nas idéias, fez pensar e muito. Obrigado.
Olá, gostaria de dizer que adorei o seu blog. Uma fonte importante de bons textos, escritos com a sensatez de um ser humano dotado de sabedoria e compaixão.
Deixo aqui o meu blog http://estranhamentos.blogspot.com/
Onde relato minhas desilusões, meus desafios e desabafos mentais. Sou homossexual expulso da família totalmente e vivendo com meu parceiro ha 7 anos. Se gostar do blog por favor coloque-o na lista dos recomendados. Colocarei o link para o seu blog.
É gratificante saber que ainda existe amor na família daqueles que se assumem. Pena não ter sido assim comigo, mas vamos em frente.
Parabéns pelo espaço, pelo texto e pela iniciativa de publicar aqui as suas idéias, que certamente são parecidas com as de muitas pessoas que não tem a mesma coragem para fazer isso.
Adorei o texto e já estou seguindo para acompanhar o que mais você tiver para nos oferecer.
Grande abraço.
Lilah! parabéns pela coragem e pela competência nesta abordagem inteligente e contundente ...
Que nós, gays tb tenhamos esta consciência e lutemos pelo simples direito de sermos cidadãos, de sermos o que somos ... compartilhando com todos os créditos devidos ...
bjux
;-)
Seus textos são fantásticos. E eu confesso que já fui assim. Já achei que tinha um jeito ideal de ser gay. E, claro, que isso era um problema relacionado a auto-aceitação. Até porque o meu jeito certo de ser era exatamente esse que passava despercebido pelos héteros. Meu jeito certo de ser gay era aquele que respeitava não a mim, mas sim ao preconceito do outro.
Nós, HOMOssexuais, compomos um meio extremamente HETEROgêneo. Somos diversos. E que bom que é assim.
E como toda evolução é feita de pequenos passos, estou fazendo os meus. Ainda não sou gay (abertamente) para todos e em todos os lugares. E quero e mereço e preciso sim, um dia, ser gay onde quer que eu esteja.
uhul..
nossa lilah estou fascinado com suas palavras...
parabéns..
seu filho (a) deve ter muito orgulho de vc.. como queria que minha mãe fizesse isso que vc faz hoje.. é com lagrimas nos olhos que eu lhe dou parabéns pelo seu trabalho..
Este texto faz todo o sentido!
Não bastasse os gays sofrerem preconceito (e em casos mais graves, discriminação e violência física ou verbal), muitos deles se discriminam.
Acredito que a heteronormatização acontece por causa do estereótipo que as pessoas têm dos gays (afeminados e promíscuos). Esses homossexuais, ao meu ver, sentem-se ofendidos pela confusão que as pessoas fazem:
- Quem é a mulher? Você ou ele?
Motivado ao fato de nossa sociedade (assim como a sociedade mundial em geral, até aqui no mundo ocidental onde as pessoas "aceitam" a homossexualidade como uma coisa mais natural) que é muito ignorante à cultura gay, ser gay e sentir-se gay, estes homossexuais querem mostrar que são "normais". É por isso que eu acredito que esse fenômeno, digamos assim, acontece.
Porém, uma coisa há de ser dita. Durante as paradas, a palavra "diversidade" é sempre utilizada e mal interpretada por gays e heteros. Gays, como sabemos, não se limitam ao estereótipo de afeminado promíscuo nem do gay que sente a necessidade de agir como hetero. Existe diversidade de pensamentos e comportamentos dos heteros. Porque com os gays as pessoas ainda são vistas dentro dos estereótipos e ele ainda seja encorajado.
Claro que as opiniões vão divergir. Tem gente que vai defender o direito de sair na rua de mãos dadas com o parceiro e beijar em público, enquanto tem gente que vai preferir fazer isso na intimidade a dois. Há quem se sinta à vontade e quem não se sinta à vontade. Há heteros que adoram trocar esses carinhos em públicos enquanto os outros morrem de vergonha. É preconceito, é recusar a própria sexualidade? Não, é uma questão de costume.
No fim das contas, o mais importante é o respeito. Ninguém precisa gostar de ninguém porque o cara é gay ou não. Há de se respeitar a diversidade, dos heteros e dos gays.
Esse texto e seu?Recebi atraves de um amigo e preciso parabenizar o autor! Mesmo que nao, parabens por divulgar.
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