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sábado, 15 de janeiro de 2011

Comunidade ou Castas?



Talvez você não assista BBB. E fique chocado com o fato de que eu, não só assisto, como tenho inclusive um blog sobre o assunto. E talvez você nem ache que é pertinente falar sobre isso aqui. Mas a edição de ontem escancarou de maneira tão absurda algo que eu venho comentando muito aqui. A falta de uma identidade de comunidade aos LGBTs.

São gays discretos acusando afeminados, lésbicas que não gostam de travestis, gays que rejeitam transexuais e por ai a fora. São vários que preferem o anonimato de não ser reconhecidos como gays e acham que militância é coisa de chato querendo aparecer. Que já está bom demais ser "aceito" se heterossexualizando.

O BBB tem 3 LGBTs assumidos: dois gays e uma transexual. A Trans, Ariadna, até o momento não contou sua história, mas foi colocada contra a parede pelo Lucival, um dos gays do programa. Até aí tudo bem. Perguntar é um direito de qualquer um, ainda que possa até ser invasivo. Mas ainda é um direito perguntar, e um direito responder ou não. Só que a coisa não parou na pergunta. Num diálogo recheado de piadas maldosas, risinhos galhofeiros, dedos apontados e gracinhas sem o menor sentido, Daniel e Lucival protagonizam uma cena onde o preconceito fica latente. Corte.

Os outros participantes na piscina fazem piadas. E no meio delas perguntam algo sobre gays para Daniel. O identificando como tal. Na mesma hora Daniel reage ofendido e tenta aplicar uma lição de moral sobre não gostar de rótulos e não querer ser conhecido como o gay do BBB. Como gay e ponto na verdade. Um direito? Ou uma tremenda contradição de tudo que conversou antes e tudo que exige de Ariadna (que se posicione, que assuma, que defenda, que etc...) ?

Daniel e Lucival repetem uma atitude bem comum. Oprimidos a vida toda eles atacam antes de ser atacados. Hei, tem um trans no BBB! Você não acha melhor a gente jogar os holofotes para cima dela e desviar de nós? Por que quando eles souberem melhor vão achar que a gente concorda com isso. Vai que eles colocam a gente no mesmo barco e ai sobra para nós. E a gente não é como ela. A gente é de outra classe. Vamos deixar isso claro para que eles entendam que a gente é gay, mas é um gay "normal".

Não existe comunidade LGBT no Brasil. Não com identidade de grupo. Existem castas. E nessas castas, travestis e transexuais ocupam a última posição. São minoria dentro da minoria. Oprimidos até por quem divide com eles uma sigla que parece não ter sentido nenhum. Esquecem, Lucival, Daniel e todos aqueles que compartilham essa visão, que para homofóbicos não importa que letra você ocupa na sigla: é TUDO VIADO E SAPATÃO. Eles colocam tudo no mesmo saco. E odeiam tudo do mesmo jeito. Infelizmente, com o aval de parte dos próprios oprimidos.


Eu não consegui encontrar o vídeo do momento da conversa, mas você pode ver AQUI na íntegra a edição de ontem que tem a conversa dos dois (minuto 17) e a cena da piscina na sequência.

8 comentários:

Hugo de Oliveira disse...

Lilah,

Acompanhei tudo isso e achei um absurdo. Ficou explicito o preconceito.Ridícula a posição de Daniel e Lucival.

abraços

Anônimo disse...

Lilah, há tempos não apareço por aqui e quando apareço, pareço chegar na "hora certa" ;) Primeiro eu parabenizo vc pela coragem que poucos têm em dizer que não existe comunidade LGBT no Brasil... Por mais que para pessoas como eu e vc isso pareça óbvio, é assunto tabu no "nicho gay". "Farme 40º" não recebe o apoio de alguns sites da "comunidade", justamente pela minha posição: Só será possível combater o preconceito quando nos estabelecermos como COMUNIDADE, ou seja, nos acolhermos, e isso não significa ter que pedir "benção" para poder colocar o meu próprio ponto de vista sobre a homossexualidade. Sim, alguns donos de sites acreditam mesmo q vc só pode falar sobre gays na Internet se antes pedir licença à eles. A tática é sempre mesma: "Não falemos deles e logo serão esquecidos". Já estamos aqui há 2 anos! Rs. Percebi isso tb no caso do perfil homofóbico do Twitter que conseguimos retirar do ar. Muitos nos disseram em DM no Twitter que "deveríamos deixar quieto", que falar deles "dava ibope". Isso é de uma covardia inaceitável. Depois da mobilização q incluiu até Léo Jaime, o perfil foi banido. Que venham outros, que tiremos todos. Quanto ao BBB, a coisa é muito mais séria. Na edição anterior, foi preciso um discurso gigante do Bial no final para tentar impedir que com a vitória do Dourado o programa não saísse com fama de propagador da homofobia. A coisa toda quase saiu do controle. Foi constrangedor. Agora, mais uma vez eles correm o risco. O que as pessoas assistem todas as noites, sem perceber, é uma piada homofóbica, como sempre, de mal gosto. Ariadna não diz para os outros participantes q é transexual pq isso é cláusula de contrato e é aí que Boninho se segura para alavancar o ibope, a velha piada machista do travesti. Imagina comigo um grupo de amigos héteros bebendo no ensaio de uma escola de samba. De repente, uma mulher linda aparece por perto. Um deles, sabendo q na verdade se trata de uma travesti, convence um dos amigos a ficar com ela... Depois q um dos amigos fica, ele conta pra todo grupo quem "na verdade" era a mulher gostosa... Todos riem, menos o amigo enganado, "claro", e isso vira piada durante anos entre eles... É isso q está acontecendo! Lá pelas bandas do BBB não tem ninguém interesssado na "comunidade gay", pelo menos, não nos seus direitos, mas no ibope q gera. O que fazem de Ariadna é transforma-la no personagem central dessa piada: Quem será o "machão" que ficará com ela para prazer e riso de todo Brasil? Acho lamentável. Desculpa o texto gigante - quase um desabafo! Rs - mas é pra compensar o tempo q passo sem vir por aqui. Beijos, Caesar.

Anônimo disse...

Que vergonha desses dois, meu deus!
E eu achando que do Serginho e Dicesar não podia piorar...

Gui-San disse...

Vi esse momento, fiquei estarrecido com o nivel que os dois estavam chegando.
Um absurdo sem tamanho, e pior que essa e a grande realidade. Não sei se existe esse termo, mas existem muitos gays que são "Transfobicos" ou "Bifobicos". Como um comentario do @joaomarcio "Muito bacana mesmo dois gays se divertindo as custas de uma transexual. Realmente, pq luta contra o preconceito só vale pro G do LGBT, né?"
Essa frase explana exatamente a realidade a maioria da minoria faz exatamente o que fazem com eles. E o pior nos a minoria da minoria sofremos por duas vezes.
1º homofobicos - que como supracitado "nos coloca tudo no mesmo saco"
2º-Pelos nossos proprios companheiros de luta.

E o pior disso se nossa comunidade está desunida dessa forma como iremos conseguir alguma coisa? Veja pela pl122 foi arquivada, e ai oq vamos fazer? Nos unir aos Gays, alguns deles nossos opressores? Fica ai uma deixa, individualista, mas isso e o que as circunstacias nos mostram.
E o pior como vamos mostrar nossa força ao sistema "Heterossexual" que vivemos. Sendo que internamente estamos em colapso, isso e motivo de piada para eles!

Ma disse...

Não assisto o BBB, até porque não tenho tv, hehe, mas acabo acompanhando o que se passa lá dentro por outras pessoas, blogs e etc., e pelo que deu pra perceber, parece que Ariadna foi colocada lá pra ser a pária da casa. Além de ser lamentável me parece cruel, ainda mais por haver dois gays endossando uma atitude preconceituosa na casa. Cruel não por expor a vida dela, e sim por endossar uma atitude homofóbica.

Excelente texto, como todos, hehe

abs

Anônimo disse...

Não acompanho o BBB, mas é claro a falta de uniformidade entre gays. O preconceito interno, as castas quase indianas, de tão intransponíveis.

Cada um com seu jeito certo de ser gay. E, como você bem disse num outro post, os gays "heterossexualizados" defendendo não o direito de ser como querem, mas defendendo o preconceito alheio.

Não dá para, como dizemos lá no Nordeste, fazer o macaco sentar no próprio rabo e zoar com o rabo alheio.

Afinal, como bem dito, para homofóbicos, é TUDO VIADO E SAPATÃO mesmo.

Inspiração na Cozinha disse...

Olá Lilah. Já assistimos alguns poucos capitulos do BBB em edições passadas, porém nunca acompanhamos na íntegra. Tudo o que sabemos nessa nova édição foi através de comerciais de TV e amigos que acompanham. A nossa opinião é que não podemos tomar como referência aquelas pessoas que estão lá, pois aquilo é um jogo e cada um está preocupado em ganhar audiência, tipo "falem mal mas falem de mim". Independente do que acontece lá devemos procurar exemplos positivos, pois no final das contas acabamos dando manchetes a esses fatos negativos. Cada um deve fazer a sua parte. Quando vemos que alguém age de forma errada, devemos, através de atitudes positivas, fazer com que esse alguém reconheça que o seu modo de pensar não é o correto e que não contribui em nada para um amadurecimento da sociedade e para a evolução da própria pessoa. Conhecemos histórias fantásticas de pessoas que superarm preconceitos e que levam uma vida de liberdade e felicidade. É na opinião dessas pessoas que devemos direcionar nossas atenções. Paz e amor a todos!

Dêco disse...

Sim, eu assisto o BBB, e senti vergonha por Lucival e Daniel e pelo que eles fizeram. Falam de respeito entre outras coisas, mas se juntam para falar de quem é "diferente deles".
Eu sou gay, e passei 28 anos tentando me livrar da religiosidade impregnada em mim por minha família e consegui aceitar quem eu era, mas em nenhum momento nessa trajetória eu apontei qualquer um, pois eu nunca esqueci o quanto sofri por ser quem eu, por ser cristão, não queria ser. Às vezes acho que levei tempo demais para me aceitar, mas hoje vejo que foi tempo suficiente para amadurecer e não ter medo.
Espero que esse circo que é o BBB sirva como exemplo de tolerância entre os participantes. Mas é apenas mais um desejo.