Um transexual não "estreia" na vida aos 18 anos. Ele se sente estranho, fora do modelo e daquilo que esperam para ele aos 5 ou 7 anos. Ou até antes. Por que não estamos falando da descoberta do sexualidade adolescente. Estamos falando da formação da identidade de gênero, que os pais começam a reforçar desde que ao nascer, escolhem rosa ou azul pro bebê.
E aquela criança estranha que insiste em não se vestir, brincar, falar, agir e se comportar como o sexo que trás entre as pernas, cresce. E cresce com ela a necessidade imperativa de se livrar daquele corpo que a ofende todos os dias. De mudar suas formas, seu nome, de ser vista e aceita como aquilo que ela sempre soube que era. Mas que o mundo não vê.
E aos 14 ou 15 está tão evidente a diferença que é impossível para os pais fecharem os olhos. E é impossível para o (a) filho (a) continuar se violentando. E muitas vezes, na maioria das vezes, esse(a) jovem sai ou é expulso de casa. E acaba sendo acolhido por um trans mais velho ou um travesti. A necessidade de adequar seu corpo a sua verdade é um imperativo psicológico quase impossível de resistir. Uma necessidade. E aí começam os usos de hormônios sem receita, de silicone industrial injetado por curiosos.
E isso tem um custo. E esse (a) jovem, expulso de casa, rejeitado na escola, vivendo por sua própria conta e risco, encontra na prostituição a forma de pagar. Por que mudar o corpo, tornar-se fisicamente o que sempre foi mentalmente é mais importante que TUDO. E repete um ciclo cruel e doloroso.
E nessa sociedade hipócrita que vivemos, muitos que torcem o nariz para a história de vida da Ariadna seriam os primeiros a não aceitar ser atendidos por um travesti médico. Proibir os filhos de serem ensinados por um travesti professor. Retirar-se de um restaurante gerenciado por um trans em processo de adequação. Por que travestis e transexuais tem um lugar nessa sociedade e não é a porta da frente. Tudo bem se eles são cabeleireiros ou maquiadores. Humoristas. Prostitutas. Mas não advogados ou vendedores de loja. Tudo bem transar em privê mas nunca casar.
Sim, muitos travestis e transexuais são prostitutas. Hei, sociedade, essa é a realidade. Não adianta esconder debaixo do tapete. Para mudar a primeira atitude precisa ser reconhecer onde está o erro. E ele está na na falta de apoio as famílias de transexuais, num sistema de saúde que não sabe reconhecer a condição de transexualidade, na escola homofóbica que expulsa o travesti, no mercado de trabalho que não aceita o transexual, na fila de mais de 3 anos por uma cirurgia de readequação sexual pelo SUS, na ausência de políticas públicas de saúde para LGBTs, na falta de unidade do movimento gay, na falta de uma educação contra a homofobia, na ausência do Estado messas questões.
Enquanto isso? Mais um transexual deve ter sido expulso de casa enquanto eu escrevia esse texto. Outro deve estar injetando hormônios receitados por um trans mais velho. Um terceiro descobre que tem câncer de mama por causa do silicone industrial. E muitos se prostituem com o sonho de juntar dinheiro suficiente para uma cirurgia que devia ser gratuita e reconhecida como um caso de saúde pública. A readequação sexual não é uma cirurgia estética é a libertação de alguém preso num cativeiro que a gente pode apenas imaginar.
2 comentários:
As vezes, quase sempre, quando eu digo: "Tudo bem se eles são cabeleireiros ou maquiadores. Humoristas. Prostitutas. Mas não advogados ou vendedores de loja. Tudo bem transar em privê mas nunca casar." o povo me acha chata e inadequada a minha religiosidade e coisa do gênero, mas diga ai se não é por ai que as coisas vão!!!!
Imagino como deve ser complicada a vida delas e deles. Como gay, penso que consigo vislumbrar uma parcela do preconceito que elas sentem...realmente a ausência de um movimento LGBT de verdade faz mta falta!!!
Abraço!!!
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