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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Homossexualidade tem cura?



A pergunta do título parte de um pressuposto errado. Por que para que algo tenha cura ele precisa ser uma doença. E homossexualidade não é doença. E não sou eu que estou dizendo isso, é a Organização Mundial de Saúde. Logo, se algo não é uma doença por que teria tratamento ou cura? Parece óbvio. Não é.

Em muitos lugares do mundo “tratar” homossexualidade é aceitável e legal. Existem diversos modelos das chamadas terapias de reorientação da sexualidade, uma dela a terapia de aversão. E o que é terapia de aversão?

A terapia de aversão é uma forma de tratamento psiquiátrico ou psicológico em que o paciente é exposto a estímulos enquanto simultaneamente é sujeitado a alguma forma de desconforto. Esse condicionamento é intencional para fazer com que o paciente associe o estímulo com sensações não-prazerosas, e então pare com um certo comportamento.

No caso da terapia de aversão, aplicada ao tratamento da homossexualidade, o paciente é exposto a fotos sensuais por exemplo e ao mesmo tempo recebe um estímulo negativo que pode ser um pequeno(na visão de quem?) choque elétrico. E eu não estou descrevendo um tratamento da idade média, mas algo que até hoje é usado em muitos países e considerado legal. No entanto, a maioria dos profissionais que aplica a terapia, seja de aversão ou de reorientação, é bem claro em afirmar que se trata de um condicionamento e não de uma cura. Fazendo uma comparação bastante grosseira e nem um pouco científica, é como treinar um canhoto a usar a mão direita. Ele vai aprender. Provavelmente vai usar a mão direita em situações sociais e parecerá um destro. Mas seu hemisfério dominante continuará sendo o direito e ele continuará sendo canhoto. Você pode mudar o comportamento, mas não a estrutura. Além disso na maioria dos casos, sem contar o óbvio estupro mental que isso significa, retirado os estímulos negativos, a sexualidade volta a se manifestar do jeito natural.

A homossexualidade não tem cura por que não é uma doença. É uma manifestação natural da sexualidade humana. Um dos indícios disso é que, independente da geografia e da cultura, a predominância na população é igual. Existem de 6% a 15% de homossexuais (depende do método de estudo) em qualquer população estudada: de americanos a esquimós, de brasileiros a japoneses, de iranianos aos antigos maias, não importa a época ou a cor da pele, a porcentagem é praticamente igual.

No Brasil as terapias de reorientação sexual são proibidas pelo Conselho Federal de Psicologia, mas isso não significa que não existam maus profissionais que ainda as pratiquem. Ou que, mesmo não chamando elas assim, lidem de maneira errada com a sexualidade do paciente, gerando dificuldades de auto aceitação e conflitos internos mais ou menos intensos. Os defensores do método falam que ele poderia ajudar os chamados egodistônicos, homossexuais que não aceitam a própria orientação e que estes deveriam ter o direito de utilizar a terapia. No entanto um olhar mais próximo a eles pode mostrar, a olhos menos preconceituosos, que a maioria dos conflitos relatados tem pouca ou nenhuma relação com a sexualidade em si e muito mais com os sentimentos de inadequação, vergonha e preconceito propagados pela sociedade. Os chamados homossexuais egodistônicos relatam angústia por se sentirem anormais, a perda da família, o medo do preconceito da sociedade e a vontade de “se encaixar”, de ser normal. Ou seja, o problema na quase totalidade dos casos não está no indivíduo, mas na pressão exterior em um ego mais sensível.

É justo que a vítima precise “se tratar” devido a uma doença que não é sua, mas da sociedade? Os sentimentos de inadequação, depressão e ideias de suicídio provem, quase sempre, do bullying, do abandono dos pais e do preconceito reinante e podem ser tratados sem que se violente a mente dessa pessoa, seu afeto e sua vida sexual. As vítimas mais frequentes desses profissionais são adolescentes cujos pais desejam “curar” o que veem como um problema mental. Se você é um adolescente e está passando por essa situação saiba que:

  • Primeiro de tudo tenha certeza que você não está doente, nem física nem mentalmente. Ser gay é absolutamente normal e não existe nada de errado com você.
  • Mesmo sendo menor, você não é propriedade dos seus pais. Eles não tem o direito de forçar você a fazer terapia se você não quiser. Só um juiz pode fazer isso, e ele não vai emitir uma ordem dessas, baseada apenas na sua sexualidade.
  • Se você já está fazendo terapia e sente que o profissional não consegue lidar com a sua sexualidade procure outro. Se ele tentar convencer você que você não é gay ou se ele o faz sentir inadequado, anormal ou propor algum “tratamento” para cura da homossexualidade, saiba que você pode e deve denunciá-lo ao Conselho Regional de Psicologia da sua cidade.
  • As faculdades de psicologia tem, quase sempre, atendimento a população, de graça ou a preços bem reduzidos. Você não precisa da autorização dos seus pais para procurar esses lugares e eles podem ajudar você nesse momento, dando apoio e orientação. Outra boa sugestão é procurar centros de referência LGBT nas grandes cidades.
  • Infelizmente, não existe nenhuma proibição legal que impeça seus pais de levar você a cultos ou outros rituais religiosos que pregam a cura ou que dizem que homossexualidade é pecado. Mas, de novo, lembre-se que você não é propriedade de seus pais. É obrigação deles zelar pela sua saúde física e mental. Se esses rituais forem de alguma forma perigosos ou se você estiver sofrendo pressão psicológica ou sendo humilhado, procure alguém de sua confiança e peça ajuda. Seus pais podem ser denunciados ao Conselho Tutelar e sua família entrará num programa de assistência.

Aos quinze ou dezesseis anos tudo isso é muito assustador, não tenha vergonha de pedir ajuda a algum adulto de confiança que possa lidar com essa questão de maneira correta e apoiar você. E lembre-se, isso melhora. As coisas vão melhorar. 

10 comentários:

Atwood disse...

Nossa Lilah só levantando e aplaudindo de pé, otimo texto , amei muito bom, nem tenho palavras sensacional

Anônimo disse...

Me lembrei do laranja mecânica lendo esse teu texto... que loucura, que sofrimento.

Quanto ao Conselho Tutelar, realmente acho que eles são uma boa solução, já que impor sofrimento aos filhos é maus tratos, né??

Afrodite disse...

Enquanto pessoas com pensamentos estúpidos assim continuarem a defender suas idéias preconceituosas,pouco poderemos fazer!
Temos mesmo que divulgar tal absurdo e combater a ignorância!
Beijo!

Adelaide disse...

Adorei seu texto muito bom mesmo, sabe eu procuro "educar " os que me rodeiam para que respeitem e assima de tudo nunca falem algo que possa magoar alguém que talvez não tenha "saido" do armário, pois o que mais me revolta é a preocupação que as pessoas tem com quem você se deita, isso é de cada um, não desmerece, ou enaltece de forma alguma...devemos respeitar o ser humano em sí, e estes pais só vão espalhar mais tristeza no mundo pois eu não creio que se deixe de amar um filho por ele se deitar com esta ou aquela pessoa.
Grande abrãço

Fernanda Reali disse...

Esse texto tem que ser dado pelos diretores de escolas aos professores, nas palestras de orientação pedagógica a cada início de ano! Conscientizar e educarpara a igualdade.

bjs

Lola disse...

Fico chocada com algumas pessoas que se dizem profissionais de Psicologia (porque profissionais não são mesmo!) que ficam espalhando emails dizendo que são capazes de "curar" homossexualismo. Pena que não exista uma "cura" pra canalhice e cara-de-pau! Falar que homossexualismo é doença é o mesmo de dizer que a cor negra de uma pessoa é contagiosa.

Bjs
Adoro seus textos!

Iara disse...

Lilah querida que belo texto, como seria bom se teus textos se propagassem ao vento e invadissem essas cabeças retrógadas e infelizes que teimam em curar doenças que não existem, porque não tem inteligencia para entender que o amor é um só e tem o direito de nascer e crescer livre sem distinção.
Continuo te acompanhando e torcendo por ti, que tuas palavras cada vez mais caiam nos ouvidos que precisam ouvu-las, tanto mal será evitado assim.
Um abraço

Anônimo disse...

Bacana esse esclarecimento para quem ainda pensa de forma diversa e acha que ser gay é um problema.
Que modelo de terapia mais horrível!
Abraço,
Té

Eriquitas disse...

Falou tudooo mesmo minha querida!
Adoro seu blog e sempre tô por aqui, mesmo qdo não deixo meu coments!
Beijos

Rejane Cavalcanti disse...

Oi Lilah. O seu texto está excelente e acho que voc~e tem uma função social muito importante e está tentando ajudar outras mães que que tem filhos homossexuais. Tenho amigas que viveram e talvez ainda vivam esse conflito e vou repassar para elas o seu texto. Aliás, desde o ano passado quando conheci você através de nossas andanças pelo Cartas que já havia falado com uma das amigas sobre voc~e e de como assumiu essa luta. Parabéns pelo seu trabalho, um cheiro, rejane (a Reje)