Eu acredito que a educação transforma. Não apenas por ser educadora, mas por ver isso se tornar realidade na minha família. Meu caçula tem 13 anos, foi adotado aos 6 e meio e aos 7 teve que lidar com o outing do Lucas. Diferente dos outros dois, para o Saulo não existiu um Lucas hétero que "virou" gay. Lucas foi, desde que ele se entende por gente, gay. E a cada dia eu percebo como isso se tornou algo trivial pro pirralho da família. Ele está de férias e fez amizade com alguns garotos bolivianos, que gostam de vir aqui jogar video game. Hoje, enquanto eu atualizava o outro blog, eles disputavam uma animada partida de futebol.
Veja bem, eu amo fotos. Podem dizer que é brega ou out, mas na minha sala, em cima do aparador, tem uma chuva de porta retratos de todos os tipos e modelos. Um dos meninos foi até o aparador e começou a observar as fotos. Pega uma foto do meu filho do meio, depois do salto de para-quedas e pergunta quem é. Sal levanta os olhos da partida de futebol: "meu irmão, Vic". O menino continua mexendo nas fotos e levanta uma do mais velho surfando, "e esse?", torna a perguntar. Mais uma pausa no futebol: "meu outro irmão, Lipe".
Eu paro de escrever e passo a prestar atenção por que o menino é curioso e não vai parar de perguntar. Ele pega uma das minhas fotos prediletas, Mario levanta o Sal, que enterra uma bola na cesta de basquete. "Esse também é seu irmão?" Saulo pausa o jogo, já meio irritado com as interrupções: "não, esse é meu cunhado". O menino então olha as fotos e levanta uma da Lili com a Laurinha no colo: "essa é a sua irmã?". Saulo suspira meio exasperado com a nova interrupção: "eu não tenho irmã, essa é minha cunhada, minha irmã ainda vai nascer"
Eu consigo enxergar as rodinhas se movendo na cabecinha curiosa do meu convidado. "Mas se você não tem irmã, como aquele ali é seu cunhado?" aponta para o Mario. Saulo pausa o jogo de novo e vira finalmente para a direção do menino curioso: "Ele é casado com meu terceiro irmão. Aquele ali de cabelo arrepiado" e aponta a foto do Lucas. O menino faz cara de espanto e larga o retrato. Sal já voltou a jogar, ignorando completamente que os dois meninos não tiram os olhos dele. O mais corajoso dos dois não demora a perguntar: "Seu irmão é bicha?"
Eu controlo a vontade de interromper e espero o que vai acontecer. Saulo finalmente desiste do jogo e olha pro colega: "A palavra é homossexual, mas sim ele é. Tá vendo aquele ali de camisa verde? (aponta pra foto do Vini, um amigo da família que vem passar o Natal aqui), ele também é. Agora a gente pode terminar o jogo?" Eles terminaram o jogo. Apesar do jeito meio abismado dos dois meninos depois do diálogo. Depois que os dois saíram eu toco no assunto, um pouco preocupada que isso possa criar problemas para Saulo. A resposta do meu pirralho é um balançar de ombros e um simples "problema deles se não gostarem"
E é assim que Sal vai levando a vida. Dizer que o irmão é gay e casado com o cunhado que ele adora, não merece mais que uma pausa rápida no meio do jogo. Se os amigos vão gostar ou não, vale um simples balançar de ombros. Pegar o irmão beijando é motivo apenas de risadas ou de uma almofada jogada do outro lado da sala. Claro que a vida não é tão simples. Sal já teve amiguinhos cujas mães não queriam que eles frequentassem minha casa. O pirralho suspirava e ficava revoltado, mas aprendeu que preconceituosos não dão bons amigos.
Lipe aprendeu a respeitar o irmão e a entender a sexualidade humana com muito esforço e muitas discussões. Para ele foi uma conquista árdua que ainda acontece todos os dias. Uma luta contra a educação machista, que damos sem nem perceber, e contra dogmas religiosos, que ele precisou discutir. Para Sal é só um balançar de ombros e um pause no video game. Tão natural quanto respirar. Entre um e outro anos de uma educação diferente. Homofobia não é inata. É adquirida. E pode ser combatida com educação e respeito.

20 comentários:
Sim, a educação transforma. E sabemos que preconceito não vem do nada. Ele é ensinado.
O texto é muito lindo, Lilah. Seu filho é um exemplo e prova que o amor jamais gerará repulsa se for mostrado e compreendido o seu real valor.
Crianças apenas repetem o comportamentos de adultos. Um exemplo é minha sobrinha,que dia desses, disse sentir nojo de gays. E ainda mencionou uma amiguinha da escola. Ela tem 7 anos, ao menos sabe o que significa gay. Mas ela escutou um adulto falar o mesmo e repetiu.
Educação saudável é educação sem ódio. Crianças não podem ser infestadas por esse lixo que alguns cultivam como moral.
Raalmente, concordo. O texto é lindo sim. E por que é tão dificil pra uns, e pra outros é um simples fato? Educação, claro.
Mostra o quanto você é boa com seus filhos Lilah, de parabéns.
Fez minha quarta mais feliz =D
Eu amei esse texto. É bem isso mesmo.. as pessoas têm 'medo' do que desconhecem.
Bah, adorei meeeesmo esse texto. E acho o Saulo um fofo.
Maravilhoso, eu adoro essa familia.
è super importante educaçao.
Oi! Eu conheci seu blog através de um texto publicado e devidamente creditado num outro blog. Foi o post "Afinal, o que é respeito?".
Admito que, ao final da leitura, estava chorando tanto pela honestidade e beleza e argumentos quanto pela aplicabilidade da situação ao meu caso. Moro bem longe da família e um dos motivos é o fato de eu ser gay... E por mais que eles ainda não saibam (oficialmente), vi o texto que talvez não o saibam porque eu respeito (ou temo?) muito o possível preconceito que eles podem ter.
Imediatamente, virei fã de seu blog. E, quando minha mãe souber oficialmente de mim, apresentarei seus textos a ela também.
Sobre o post atual, que maravilha que o conceito de seu filho "elimina" como possíveis amigos aqueles que, por ignorância, vivem no preconceito. Que belo exemplo de cidadania!
Beijooo!
É, realmente as crianças são o nosso futuro, e a educação pode fazer uma grande diferença. Lembramos do que disse Nelson Mandela "Ningue´m nasce odiando, as pessoas aprendem a odiar, e se são capazes de aprender a odiar, também podem aprender a amar." Minha filha aprendeu sobre reciclagem de lixo na escola e chegou em casa nos ensinando como fazer a separação. Isso foi em 1995. Foi a partir desse momento que comecei a separar o lixo. Por isso que devemos investir nas crianças, elas podem fazer a diferença.
Eu também acredito no poder da educação e da informação para combater não só a homofobia, mas todo tipo de preconceito. machismo, xenofobia, misoginia, racismo e afins são heranças culturais, são aprendizados que temos em casa, com nossos pais. Educação saudável é como a que você deu/dá ao Saulo. Mostrando com naturaldiade oq ue não apssa disso, naturalidade. Mostrando que o amor é sempre amor. E isso ele repassará aos filhos deles e assim por diante. É assim que criamos uma sociedade saudável e que respeite as diferenças. Excelente texto, mãe. Parabéns!
Fantástico!!!
Parabéns pela mãe que você é!
Esse vai pra sua coluna!!!
Bjs!
Lindo post. Sem dúvida que os preconceitos adquirem-se. Quando somos muito crianças, isso não existe. Parabéns.
Muito bom! Aplica-se a mim pelo fato de que dentro da minha casa, só quem falta saber sobre minha sexualidade é meu irmão mais novo, 8 anos. Com os meus pais está tudo numa ótima, mas minha mãe ainda quebra a cabeça tentando encontrar um jeito de abordar o assunto. Eu já teria o abordado a muito tempo, mas não posso interferir na maneira com que ela cria meu irmão, ela é a mãe. Mas quando acontecer, vai ser da melhor forma, meu irmão é foda ;)
Quando conheci teu blog imediatamente mostrei à minha mãe diversos posts dele. Ela leu e disse assim: Isso é uma indireta?
Eu respondi: Não mãe, é informação, coisas que todos deveriam ler/saber.
Faz muita diferença mesmo. As crianças se adaptam as situações com muito mais facilidade que um adulto. Se uma criança convive com aquela realidade desde nova, é bem provável que aquela situação se torne uma coisa natural para ela.
Educação e respeito também são fundamentais. Não adianta nada aquela realidade ser parte da vida da criança, se é tudo coberto de mal agouro e desrespeito, porque a criança há de absorver isso também.
Um beijo Lilah
Lilah, vc disse tudo, educação é a chave de tudo, acho que quando há educação as pessoas conseguem conviver mais com as diferenças, acolhem o outro com mais amor, independente do sexo, onde há amor há educação e respeito, pois estes sentimentos caminham juntos. Seu filho Sal sabe disso pq vc o educou assim, seu jeito de educar mudou, assim como seu jeito de amar.
Otimo post, me fez refletir mais.
Bjão
Educação e Informação, como disse o Jock! É a base pra acabar com qquer preconceito, basta que as pessoas queiram isso.
ADOREI a atitude do Saulo e é assim que eu gostaria de ver a minha pequena com relação às diferenças que ela vá encontrar pela vida afora.
Beijo grande!
pois eu chorei com esse texto. amando seu blog!
Fiz um post ontem EXATAMENTE sobre isso, com as minhas experiencias... Por favor veja, vc vai gostar!
http://minhasduasmamaes.blogspot.com/2010/12/ter-duas-maes-e-motivo-de-bullying.html
Lilah,
Texto fenomenal. E tudo isso graças a você mesma. Como mãe, e como pessoa, você demontra que saber amar pessoas, e isso é passado para os seus filhos. Ao saber que vc é educadora, espero que os professores de meus futuros filhos possam ter o prazer de ter professores como você.
Me entusiasma essa vivência tua, porque bate exatamente com as minhas ... os sobrinhos do meu ex-marido me conheceram quando eu tinham 3 anos ... para Eles sempre fui o Tio ... sem distinções ... o preconceito não nasce com as pessoas, ele é implantado e cultivado ... Amei a resposta do teu filho ... Pessoas homofobicas simplesmente não servem para viver em uma familia que respeita a diversidade ... se não gostam, problema deles ...
Lilah, texto e história maravilhosos. Isso só mostra como a Educação contra a homofobia deve ser preocupação não somente da escola e do Governo, mas também dos pais e de como "os pequenos" assimilam melhor as diferenças.
Por isso, o trabalho contra o preconceito deve ser massante sobre esse público. Entre os adultos, creio eu, serão poucos os que tem a capacidade de aceitar bem a homossexualidade (entre os preconceituosos), mas é possível fazer com que eles respeitem.
Já aos mais novos podemos imbutir neles mais que respeito: aceitação da diferença.
Parabéns pelo texto. Irei citá-lo lá no meu blog.
Fiquei emocionado com seu texto. Não só pelo fato de ser gay, mas por ser educador e por ter um irmão que também tem esse atitude do Sal.
Sem mais palavras...preciso de um minuto pra respirar;
abraços
Hey, I am checking this blog using the phone and this appears to be kind of odd. Thought you'd wish to know. This is a great write-up nevertheless, did not mess that up.
- David
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