A expressão “estar no armário” é comumente usada para quem mantém sua sexualidade em segredo, mas não é esse o meu objetivo no texto de hoje. Não quero falar de pais gays, Mas de pais que abrem mão de seu direito/obrigação de educar seu filho e de orientá-los, quando descobrem que ele é gay. Esses pais entram no armário, no mesmo momento em que seus filhos saem dele.
Já é extremamente preocupante que não exista nenhum programa oficial de educação sexual para jovens gays e lésbicas. O máximo que se faz, em campanhas oficiais é falar do uso da camisinha. E acabou. A ausência de modelos saudáveis de relação homoafetiva, a imposição de esteriótipos e visões preconceituosas e a ausência total de apoio afetivo e psicológico num momento tão delicado da vida já é muito grave. O pior ainda é quando esses pais abrem mão do seu papel como educadores e assumem uma postura de “eu não quero saber”.
Estabelece-se uma política de silêncio. Amigos, namorados, programas e festas deixam de ser conversados e conhecidos. Pior que isso, passam a ser evitados e olhados com desprezo. O namoro só pode ocorrer fora de casa. O(a) parceiro(a) é persona non grata em casa. Exige-se que o assunto nem sequer seja falado, algumas vezes chega-se a limitar que “tal pessoa” ligue ou mesmo venha buscar o filho(a) em casa. Mente-se para a família e obriga-se o jovem gay a mentir também. A vida sexual e afetiva deve ser vivida em silêncio, longe e de maneira escondida para não envergonhar esses pais. Que muitas vezes ainda dizem que respeitam a sexualidade do filho e não percebem que esse “respeito” é na verdade apenas um fingimento. E que o filho, as vezes pouco mais que um adolescente, tem que lidar com toda essa pressão sozinho.
O que essa postura comunica aos filhos? Que sua sexualidade é suja e vergonhosa. Que não pode fazer parte da vida "normal" da família. Eu até respeito você, dizem alguns pais, mas não quero ser obrigado a conviver com isso, me respeite também. Como se amar, ter um companheiro (a) ou constituir um lar se tornasse sujo por que esse parceiro é do mesmo sexo. O que se pede a esse filho ou filha, na verdade, é que ele continue mentindo. Continue vivendo aprisionado no armário da invisibilidade social. Pede-se a esse jovem que assuma uma personalidade de faz de conta e aceite um papel social de segunda classe, vivendo sua sexualidade de maneira clandestina.
O que alguns pais talvez não percebam é que, ao fazer isso eles empurram o filho (a) a, mais cedo ou mais tarde, excluí-los cada vez mais da sua vida. Seu filho (a) não vai deixar de ser gay e, se você não pode conviver com esse pedaço da vida dele, ele vai precisar cada vez mais de um espaço onde você não entra. Ser amado, ter uma relação afetiva significante é um desejo natural da maioria das pessoas, o ser humano não nasceu para a solidão. E relações significantes não florescem em guetos ou cerceados em gavetinhas, em espaços privados e longe da vista de todo mundo. Não acontecem só quando não tem ninguém olhando. Quando se ama alguém, se quer que ele faça parte da nossa vida. E isso inclui parentes chatos, sobrinhos irritantes, amigos e o cachorro da casa. Se quer validação social. Ou ele morre sufocado na escuridão.
Adotar a política do silêncio e fingir que não sabe, não apenas empurra seu filho a viver uma mentira que ele não queria e não suportava mais quando te contou. Mais que isso. O deixa sem chão. No caso de adolescentes os deixa também sem a orientação necessária nesse momento delicado. Empurra seus desejos para o gueto e diz a ele que é só lá que existe resposta a eles. Seu filho (a) continua sendo o mesmo. Com os mesmos sonhos, vontades, planos e necessidades. Ele ainda precisa do seu conselho, seu apoio, seu carinho e orientação. Ele ainda quer fazer parte da sua vida, ainda quer lhe contar sobre a dele. Mais do que antes até, ele precisa de proteção e apoio, frente ao preconceito que vai ter que encarar no mundo. Não faça parte do problema, seja parte da solução dele.

10 comentários:
Excelente texto!
Que meuitos pais tenham visto nele o alerta tão bem colocado que vc faz!
Beijo!
Ótimo texto, concordo com o que você escreveu!!
Bj.
Tuka.
E essa problemática Lilah não é só em relação a sexualidade. Pais que escondem filhos com problemas de drogas ou que fingem que aquele filho doente é saudável, etc...lamentável!
Bjs
Muito bom...novamente!
Na verdade, na maioria das vezes, os pais estão é querendo se livrar da pressão social de ter um filho gay e essa "política do silêncio" nada mais é do que uma tentativa de impedir a reverberação do "problema".
É triste ver pessoas abrindo mão do afeto de outras por uma questão tão egoísta!
Seria tão bom se esse post pudesse aparecer misteriosamente no criado-mudo de alguns pais..
Adorei! Parece que vc ta falando dos meus pais... ai como eu queria que eles vissem isso!
http://minhasduasmamaes.blogspot.com/
Aggy, Bel e Elis
Que honra sua visita no meu blog! Eu e minha esposa visitamos seu blog TODA hora!
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Bjos
Aggy, Bel e Elis
Texo muito bom!
Pena que, alguns pais ainda tentam viver baseando-se em protótipos e modelos sociais construídos (pela heterosexualidade machista!). E, que, não veem que seu filho gay, nada mais quer, além de se sentir amado, protegido, apoiado. Mas enfim, texto excelente! =D
Fascinado pelos seus textos, Lilah...
Parabéns!
Otimo texto... Vou dar um jeito disso parar as mãos dos meus pais e irmãs....
Obrigada!
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