Eu nasci católica. Numa família de espanhóis brabos e extremamente religiosos. Meu pai era Ministro da Eucaristia e só não foi padre por que ele não era “talhado para o celibato” como ele costumava dizer. Eu ia a missa todos os domingos, fiz primeira comunhão com 10 anos e me crismei aos 15. Fui catequista mirim, cuidando dos pequenos na creche da Igreja desde os 13 anos. Aí eu engravidei. De um judeu. Aos 15 anos, meses depois da crisma e sem estar casada.
E a Igreja, onde eu tinha crescido e me sentia abrigada e protegida, não gostou nadinha disso. Meu pai, apesar de bravo e religioso, não levou mais que uns dias para se recompor do golpe e cuidar da caçulinha de pouco juízo. O Padre da paróquia nunca se recuperou. E se recusou a fazer o casamento sem que Isaac se convertesse e fizesse primeira comunhão. Ele não fez e eu agradeço até hoje por isso. Fizemos uma pequena cerimônia judaica e iríamos nos separar menos de 2 anos depois.
Aquela primeira negação da Igreja, deixou marcas. E eu deixei de ir as missas e de participar, mesmo na nova Paróquia, onde batizei os dois filhos mais velhos. Eu não perdi a fé em Deus, mas começava a perder a fé nas instituições. Mesmo assim me casei na Igreja. Na mesma paróquia que não quis me casar anos antes. E com o filho de uma família ainda mais católica que a minha! Lucas foi batizado ali um ano depois. Mas eu já não sentia mais desejo de estar ali. E um dia, minha cunhada me chamou para ir a um culto numa igreja evangélica. E em breve eu estava completamente integrada aquela realidade e voltei a participar ativamente. A Igreja, uma das mais tradicionais e fundamentalistas do Brasil.
Lipe e Victor se batizaram ainda adolescentes. Lucas não. E aos 12 ou 13 anos, eu começava a notar que havia algo de diferente com o meu caçula. Algo que eu fui ensinada a odiar, a considerar sujo, pecado, doença. Foram muitas noites pensando, orando, tentando entender por que isso tinha acontecido justamente comigo, se era um castigo pelas minhas loucuras adolescentes...por que o Deus que tinham me apresentado era punitivo, vingador, era um Deus para se ter TEMOR e não AMOR. E meu filho lindo, carinhoso e de coração enorme era de repente um monstro, que eu teria que renegar segundo os dogmas da igreja.
Eu li as condenações bíblicas a homossexualidade tantas vezes que sou capaz de citar versículo por versículo! E cada vez que eu lia, mais contraditórios eles se pareciam. Já falei disso em outro texto mostrando que tais condenações só eram aplicáveis dentro de um contexto histórico determinado. E foi isso que eu perguntei a um professor, num curso de teologia que fui fazer na ânsia de encontrar respostas. Por que Levítico 18:22 e 20:13 eram tão importantes e o resto inteiro a Igreja considerava costumes. E por quase 3h debatendo esse assunto em sala, eu fui vendo o quanto os argumentos ficavam vazios de sentido e cheios da moral preconceituosa do professor.
Depois de 15 anos eu deixei a Igreja. Pouco mais de uma ano antes de Lucas me contar que era gay. Eu fiquei um tanto perdida no início. Como alguém de quem tiraram as certezas de uma vida inteira. Eu não era capaz de entender ou amar aquele Deus punitivo e cruel que condenaria meu filho e tantos outros ao inferno. Eu não era mais capaz de olhar a Bíblia como infalível por que eu havia encontrado tantas falhas, tantas interpretações erradas, tantas traduções divergentes. E ao mesmo tempo eu não sabia se aquele Deus misericordioso, que me apresentaram em pequena, realmente existia.
Lucas se assumiu gay aos 17 e a pressão religiosa familiar foi imensa. A culpa era minha que não o mantive na igreja, que caí da graça, que abandonei Deus. Ele devia ser tratado, orado, vigiado e punido ou a ira de Deus cairia sobre nós. E por incrível que possa parecer, foi justamente aí que eu encontrei Deus de novo e estabeleci com Ele a relação que temos hoje. Foram nos momentos de incerteza e dor que eu me voltei, não para o Deus cruel que iria me punir, mas para o Pai que me acolhia nas horas que eu só queria sumir e achava que nunca mais teria paz na minha casa.
A fé sem razão é fanatismo. O Deus que pune e mata, que se vinga e condena é obra de homens que precisam controlar seus rebanhos com a força de um ser onipotente, que vigia e julga seus filhos com muito mais severidade e irracionalidade, que os pais humanos...que alegam ser sua imagem e semelhança. A homossexualidade que tanto condenam, baseados apenas em pequenos versos de um livro enorme e cheio de figuras de linguagem, a quem tanto perseguem, temem e incitam o ódio, é tão fruto da criação desse Ser como qualquer outra de Suas obras. Chame-o Deus, Jeová, Javé, Alá ou chame-o de Força da Natureza, Principio do Universo...não importa. Se você acredita que Ele criou o mundo e os que nele habitam, se você acredita que Ele é o responsável pelas leis naturais, então Ele criou a homossexualidade, Ele criou meu filho....só do jeito que Ele quis. Tanto como me criou hétero. Eu não fiz uma escolha, nem o Lucas fez. Nós simplesmente SOMOS.
O Deus a quem eu me dirijo, seja para agradecer ou para ser consolada em momentos ruins, é um Deus que ama. Que criou seus filhos para a felicidade e o pleno exercício dos dons que Ele mesmo deu. Não é um vingativo senhor feudal. Não é um sádico que daria aos Seus filhos um desejo, um instinto, só para prová-los capazes de resistir, pasmem, ao que ele mesmo plantou. Nesse Deus, dos fundamentalistas e fanáticos, eu não creio.

9 comentários:
Vc disse tudo, eu sempre fui a missa quando criança e sofria muito com este Deus punitivo, sofria por pensar que mesmo que eu fosse boa, eu iria sofrer se alguém que eu amasse fosse para o inferno, hoje graças a Ele, esse Deus amigo, Pai, me mostrou um caminho e eu tento seguir por ele.
Beijos
Querida,
me emocionei tanto no seu post!
Como vc conseguiu escrever tão bem!
Eu não tenho um bom relacionamento com Deus, sou de pouca fé, mas me esforço... Tantas dúvidas...
Não tenho filho gay, tb não sou homossexual, mas concordo 100% com td q escreveu...
E só pra concluir, me serviu pra pensar nesse meu conflito com Nosso Pai, por problemas diferentes desses, mas meus problemas!
Obrigada!
Bj
da Li
Lilah, adorei seu texto. Antes de me assumir para mim mesmo, eu vivia naquela paranóia de "isso é ruim", "Deus não permite", "se insistir vou para o inferno". Bastou eu mudar minha perspectiva e compreender que isso são apenas "paranóias" e nada além disso para que eu tivesse sossego. Se perguntam o que eu aconselharia aos gays para enfrentaram o preconceito e a barra pesada da indiferença, eu diria: afastem-se das religiões. Hoje sou ateu.
Este foi mais um post que me emocionou muito. Me identifiquei demais com a sua história com a religião. Só que em minha família, fomos desde sempre evangélicos.
Minha mãe, por mais que se esforce, tem muitas dificuldades em me aceitar. E muita de sua dificuldade vem do temor a esse Deus vingativo. Inclusive, encontrei em uma caixinha onde ela guarda os seus pedidos de oração à Deus, um pedido para que Ele me tirasse das trevas.
Eu tenho pena, pois imagino todos os conflitos internos pelos quais ela está passando. Ela sempre foi do tipo de mãe leoa, que protege o filho de qualquer ameaça. E ela sempre demonstra se esforçar muito pra me compreender e me defender, mas suas raizes religiosas e sua ignorancia da homossexualidade (daonde nasce o preconceito) a prendem em um afastamento de mim que a faz sofrer.
Eu propus a ela, que nós tivessemos conversas sobre a homossexualidade, para que ela possa ter uma outra visão do tema, e mostrar a ela modelos diferentes do que o estereotipo da promiscuidade gay. Ela aceitou de muito bom grado, e apenas estou esperando que meu periodo na universidade termine, para que comecemos.
Já com meu irmão, a situação é diferente. Ele é totalmente cego e está preso a um sentimento de culpa que o deixa doente, por não ser capaz de alcançar a perfeição a qual ele acha que Deus exige. Assim, ele se cobra muito e também dos outros. E não vê o quanto ele julga e o quanto ele deixa de viver. Sinceramente sinto pena dele.
Ele tem idéias sobre a homossexualidade tão arcaicas e de tamanha ignorancia, que nem sinto vontade de tentar uma aproximação.
Bem, acabei ao inves de comentar, contando minha historia! rs
Mas eu só queria dizer, que mais uma vez amei o post, e que seu blog vai servir de base pra muitas das minhas conversas com a minha mãe e meu pai sobre a homossexualidade!
Lilah, não acredito em religião e sim em Deus e uma força maior, não acredito que Deus pune, acho que nós mesmos nos punimos durante a vida. Eu ja frequentei todas as religiões, e acho que todas querem impor a sua verdade. Não estou criticando nem discutindo, este é apenas o meu ponto de vista. Continuo tendo fé em Deus. Fazendo minhas preces e acreditando que tudo o que vivemos aqui é uma continuação da sua obra.
Otimo post.
Bjão
Meus parabéns. Um post muito digno de felicitações. Tudo verdade. Um Deus punitivo e vingativo não condiz com o sentimento que temos ao conversar com aquele Deus que aprendemos a amar. As diferenças internas de cada ser, não trás às nossas vidas a desgraça ou o inferno. As pessoas nascem como Deus as quer e dá felicidade e amor do mesmo jeito. Depende da sociedade, aceitar e respeitar.
Sou homossexual, por muitos visto como "erro" , por tantos outros respeitado pelas minha scaracterísticas. Nem chamo isso de "escolha" porque se fosse, eu poderia escolher ser "normal" (segundo a sociedade). Nasci assim, e Deus me faz feliz, do mesmo jeito. PArabéns a você, e dê força ao seu filho. :D
Maravilha de texto! Emocionante e verdadeiro! Obrigada querida, por compartilhar!
Já vi esse filme! De verdade mesmo. Não aconteceu apenas com você e posso assegurar que ainda vai acontecer com muitas outras mães. Só que o fim desse filme pode ter diversos finais.
A quem interessar possa, existe um filme produzido em 2009 por uma rede de TV a Cabo Americana que trata sobre este assunto. Uma mãe, religiosa ao extremo, tenta curar seu filho da sua homossexualidade se baseando nas passagens bíblicas que condenam tal fato. Seu filho, aos 20 anos (em 1983), se suicida jogando-se de uma ponte em meio a uma rodovia interestadual.
Foi baseado numa história verídica publicada em livro em 1995 nos EUA.
Hoje, esta mãe é uma ativista na defesa dos direitos LGBT.
Link do trailler You Tube: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=doe37uAbA8A&gl=BR
Você pode fazer o download do filme também (com legendas em Português) aqui: http://www.megaupload.com/?d=049BG4GW
Lindo o post!
Pela forma como escreve, deve ter sido da mesma Igreja da minha família...e da qual me afastei pro ser gay.
Espero que Deus me dê a graça de que minha mãe alcance a sabedoria que vc tem um dia e que voltemos a ser amigos de verdade!
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