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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Meninas São Mais Corajosas?


Clara, noite rara, nos levando além
da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos
na escuridão

É inegável que meninas têm uma certa liberdade em expressar afeto desde a infância. Diferente dos garotos que, ao primeiro sinal de carinho com outro menino, são fortemente reprimidos, quase ninguém vê perigo em duas meninas que são melhores amigas e passam horas ao telefone. Também não existe tanta repressão a beijos e abraços amigáveis ou dormirem juntas no quarto de uma delas. O medo dos pais é maior da nossa proximidade com o sexo oposto. Daí que você pode pensar que meninas lésbicas têm menos pressão na hora de se assumir. Mentira.

Sim, existe um certo fetiche dos homens em ver duas mulheres transando, mas esse fetiche não tem relação com aceitação ou desejo. A maioria dos homens quando fala desse fetiche tem uma visão muito machista: as duas meninas estão se divertindo enquanto o macho não entra! E quando ele entrar, claro, elas irão preferi-lo. Essa tolerância é na verdade uma desqualificação do relacionamento lésbico: elas só são lésbicas por que não encontraram o homem certo.

Daí que tudo bem duas meninas andando de mãos dadas no shopping. Tudo bem que elas “brinquem” de ser lésbicas, por que uma hora o homem certo vai aparecer e “corrigir” isso. Deixe as meninas se divertirem. Na cabeça desses homens não é algo para ser levado a sério, elas vão se “consertar” em algum momento e talvez eles até deem uma ajudazinha. O mesmo homem que reage com ojeriza a relação entre gays se diz tolerante a relações lésbicas numa linha de raciocínio torta, onde o machismo é o denominador comum. Homens não podem ser penetrados, por que isso é ceder sua posição de macho dominante, não podem se submeter a outro homem. Então, na cabeça torta desse machista, a relação lésbica não passa de uma brincadeira, já que nenhuma penetração acontece (na cabeça deles, of course).

Claro que todo esse raciocínio torto vai ruir se as meninas em questão não forem fortemente femininas...de novo, na versão dele de femininas. Uma lésbica masculinizada (eu odeio o termo tanto quanto odeio afeminado, mas...) é um desafio à posição do macho. É uma afronta a ele. E ai a tolerância voa pela janela. E o preconceito que essas meninas enfrentam é tão ou maior que os afeminados. É um desafio à estrutura patriarcal. Veja bem, além de não se curvar às vontades do macho, ela ainda quer ter comportamentos só reservados a ele!

E eu me pergunto de onde vem a coragem e me encanto com a disposição dessas meninas em enfrentar isso. Em exigir seus direitos e partir para a luta. Elas estão nos shoppings e praças marcando muito mais presença que os homens gays. Elas estão na luta pela adoção, pela fertilização assistida, pela reforma na educação. Elas estão saindo do armário e andando orgulhosas na rua. Elas estão apanhando do mundo, mas se recusam a baixar a cabeça. E ainda precisam ouvir que para elas é mais fácil! Não é. É toda uma luta contra a sociedade patriarcal e machista, exatamente como para os homens.

Eu acredito sim que existe uma certa “tolerância” a manifestações de afeto lésbico que não existe com os homens. Mas essa tal de tolerância não passa da introdução. Ela está restrita a uma minoria que parece “bonitinha” à vista e que é engolida pela sociedade. Lésbicas maduras andando de mãos dadas na rua ou se beijando em público, terão a mesma reação de desagrado que garotos gays sofrem. Meninas menos “femininas” são tão ou mais rejeitadas que afeminados. A diferença que eu vejo é que, mesmo assim, elas não tem mais medo de saber quem são.

Não quero aqui criar uma divisão a la clube do Bolinha, mas acho que gays e lésbicas estão em momentos diferentes no que diz respeito a essa visibilidade. Enquanto vejo um discurso machista de ser discreto e não dar bandeira, ganhar corpo entre os homens, vejo essas meninas partindo para a luta, não por uma falsa aceitação que só existe se você se enquadra nos moldes heteronormativos, mas por respeito e visibilidade. E amigo, só quem é mulher sabe como é complicado se impor nessa sociedade machista. É dose para leão. Negar-se a cumprir a missão de cuidadora e procriadora para os homens é uma afronta que eles não digerem bem. 


9 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Gosto muito dos seus textos, são informativos, intensos e claros. Vou divulgar esse no meu Facebook, tá? Bj

Phillipe disse...

Realmente. Eu acho que você deveria escrever um livro. :)

Renata (Mirka) disse...

Olá!
Comecei a "frequentar" seu blog e confesso que retomei algumas questões que estavam adormecidas...
O preconceito faz parte do ser humano! Isso independe da orientação, opção, seja qual lá o nome politicamente correto que se dê!
Me assumi lesbica aos 24 anos, em 1999 pra 2000.
Me relacionei com vários tipos de mulheres, desde as mais femininas até as mais masculinas.
Minhas amigas também seguem o mesmo "tipo"...
Dentro do proprio meio, existe o preconceito para com as femininas, para as masculinizadas, pro gay que é "discreto", pro gay que é afetado...
Isso sem contar no preconceito por me assumir bissexual!
Fui discriminada dentro do proprio meio! rs
Pessoas se afastaram, outras diziam que era só uma fase, pra eu "não rasgar a carteirinha do clube"...
Mantive um relacionamento hetero que não deu certo, por ene outros motivos, durante quase 3 anos...
Dele nasceu um menino, que tem 3 anos e meio.
O que eu ouço até hoje?
Que eu engravidei pra fazer a produção independente! rs
Minha mãe quase enlouqueceu quando eu disse que estava apaixonada por um homem: "Como assim? Por que você vai fazer isso com a vida desse rapaz? Por que você está fazendo isso com a gente?"
O que eu posso dizer, pra resumir a ópera, é que infelizmente o preconceito faz parte da "humanidade"!

Anônimo disse...

Oi,
arrumei um tempinho p vir ler. Era esse o texto que você queria opinião?
Bem, sobre certos "mitos" a respeito de lésbica, eles são bem conhecidos; inclusive há um livro só sobre isso, é da Stéphanie Arc.
Teve um tempo, que uma marca de desodorante fez uma campanha no seu site e havia claramente um texto que pregava: "se você não comer as meninas direito, elas vão virar lésbicas. Cada lésbica no mundo é sinal de que algum homem não vez seu trabalho direito, então homens, vamos resgatar as mulheres".
Voltando ao texto, acho que essa pressão para mulheres serem femininas, e para homens serem masculinos, existe dos dois lados, mas em ambos os casos há quem não siga essa "ordem" geral do "desempenhe seu papel de gênero".
No final das contas, o importante é justamente dar a cara à tapa do jeito que se é, sem vergonhas e recalques!

Abraço =)
-
ps: durante muito tempo as lésbicas foram invisíveis justamente por esse fato de ser "brincadeira", dentre outros fatores, claro...

Anônimo disse...

1. vou mandar esse texto pra uma amiga que ainda não conhece o blog!

2. tava pensando.. as mulheres fazem esse movimento de dar a cara a tapa exatamente pq são mulheres. A história é assim: os homens explodem e nós ficamos quietas... e, de repente, aparecemos e tomamos a frente do negócio e mostamos como é que se faz.

Esses tempos houve um caso judicial muito interessante: duas mulheres tiveram um filho. Uma delas teve o nenê com o óvulo da outra. FOI GENIAL. Deram um nó no judiciário. Uma mãe é mãe pq pariu, mas o DNA é da outra. Elas foram fantásticas. Como são as mulheres até conseguirem o que desejam.

Ponto pra nós, nesse mundo machista e cruel.

O insustentável peso de ser disse...

Sou assumida, tenho 36 anos e nunca tive restrições ou me podei. Não foi fácil para mim, claro. Saí de um casamento convencional, me assumi lésbica e ergui minha cabeça contra o preconceito sim.
Acredito que toda forma de manifestação de afeto é válida, ainda que, muitas vezes, corremos riscos porque determinados rapazes não se constrangem em nos convidar para uma brincadeirinha a três.
Muito bacana seu blog e voltarei mais vezes.
Parabéns!

Linus disse...

Muito bom seu texto, como sempre. Somente um adendo, uma provocação inquisitiva. Não seria por causa dessa aceitação de primeira página que é um pouco mais fácil para as lésbicas se assumirem porque não há o medo de apanhar com uma lâmpada fluorescente ou tomar um tiro? Não sei, ao ler o texto me veio na cabeça que os casos de homofobia que tomam a mídia sempre são contra homens, o que pode ter duas causas. A primeira seria que mulheres vítimas de homofobia não são destacadas pela mídia, a segunda seria que a violência contra a mulher é sempre numa relação de intimidade. Qualquer uma das duas, entretando, é expressão do machismo dominante da sociedade. Aliás homofobia e machismo caminham de mãos dadas.

Unknown disse...

Olá, meus parabéns pelo texto! Faço Psicologia e seu texto me fez lembrar de um trabalho de antropologia que fiz, em que o tema do meu trabalho era homossexualidade feminina, minha professora é uma pessoa idosa, então já as idéias dela realmente entraram em choque com as do grupo, pois ela pensava exatamente que "para as mulheres homossexuais é mais fácil", o debate sobre o tema foi longo e mesmo assim ela ainda manteve a mesma posição. Realmente gostei do seu texto e enviarei à minha professora o link desse post, pelo menos para sugerir uma nova reflexão.

Parabéns pelo texto e pelo blog!!

Mayara disse...

Olá,

Fiquei impressionada em como o seu texto desenvolveu tudo o que também acho e de uma maneira tão clara, tão óbvia!
Como é incrível a racionalidade! Ela mostra como o preconceito é tão sem sentido.

Gostaria de publicar seu texto no blog que participo (www.alemdaparada.blogspot.com). Posso?


Vou imprimir o texto e pendurar no quarto, salvar em uma pasta no pc, bem vou fazer uma promo das suas ideias!

Abç,

Mayara