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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Só uma experiência...



Muito interessante.
Sou homo, namoro há 2 anos. No começo era um namoro a distância, mudei de cidade e agora vejo meu namorado todos os dias.
A complicação dos gays, num namoro, é que o afeto entre eles, "não pode" passar das 4 paredes do seu quarto. É o que eu vivo, Ter uma relação e não poder almoçar sossegado com seu namorado que as pessoas te olham torto. Sentar junto e dar as mãos no cinema...impossível quase. Isso cria, em cada um dos gays, a sensibilidade emocional de que ter um relacionamento duradouro é sofrimento. Um amigo meu me disse isso. Prefere o casual, somente beijar em baladas, onde ninguém vai discriminam, fazer sexo casual sempre, e não se apegar a quem ele vá querer dar um abraço e sofrer o preconceito.
No fundo, é difícil viver assim, sem "poder" muitas coisas mas vale a pena cada minuto que você gasta com quem se ama.


Eu recebi o comentário acima na postagem Saindo do Gayto. E ele é tão visceral, resume de maneira brilhante algo que eu tenho tentado explicar e acho que não consegui do jeito que eu queria, que eu precisei transformá-lo em post. Infelizmente ele comentou como anônimo então não posso dar os devidos créditos, mas que fique registrado o meu agradecimento pela brilhante participação.

As relações humanas se fazem no meio, no convívio. Elas não existem por si mesmas, como algo separado da realidade onde acontecem. É a sociedade, o grupo de amigos, a família, os colegas do trabalho que dão “validade” as relações. É por isso que marcamos tantos momentos com comemorações e festas. É uma forma de obter validade do grupo aquilo que estamos fazendo. No caso das relações homossexuais elas já começam sem essa validade dada pela sociedade. Elas já nascem em um universo hostil, vistas como menos importantes, anti naturais, erradas, perigosas e nocivas a sociedade heteronormatizada. Mas o problema é ainda mais complexo.

Homossexuais não se tornam homossexuais aos 21 anos, prontos e acabados no seu desenvolvimento afetivo-sexual. Eles se descobrem gays e lésbicas quando são pré adolescente, na mesma fase que um menino ou menina hétero descobre o sexo oposto. Só que héteros tem a sua disposição milhares de modelos de papel. Livros, novelas, filmes, contos de fada, amigos, vizinhos e parentes vivem relações hétero e são apontados como modelos. Esse menino ou menina homossexual cresce com a pressão de um grupo que o mostra APENAS um caminho saudável. E que é justamente um caminho que ele não pode tomar.

E ele não encaixa. E por mais que procure ele não encontra esses tais modelos, por que relações homossexuais só acontecem entre quatro paredes! Vende-se uma ideia preconceituosa de que homossexuais só se reúnem para transar. E aí esse menino ou menina se apaixona, se envolve, se descobre. E quer viver aquilo com toda a intensidade que só a juventude tem. SÓ QUE ELE NÃO PODE. Ele não pode contar pra ninguém, ele não pode fazer o que seus amigos fazem sob pena de ser banido do grupo. E aí acontecem coisas como essa:


Dai eu contei pra ele de um menino que eu conheço da internet. E que mora numa cidade de interior. E ele arranjou um namorado. E os dois perderam a virgindade num banheiro mal cheiroso e abandonado num parque da cidade deles. E nos paramos de rir. E ficamos falando no quão cruel e isso tudo. Um momento intimo, tão especial, tão ansiosamente aguardado ser partilhado num banheiro utilizado por viciados em crack.  AndreV_ em Lágrimas de Crocodilo


E que relação resiste a viver o tempo todo no gueto? Faça uma experiência, você que é hétero e tem um relacionamento estável. Por 24h comporte-se como se você e seu namorado(a) ou marido não pudessem ser vistos em público como um casal. Estão proibidos beijos, abraços, andar de mãos dadas, apelidos carinhosos em público. Você só deve apresentá-lo a conhecidos como amigo. Nem mesmo em casa você pode tocá-lo se estiver na presença de pais ou parentes. Vá ao cinema, mas lembre-se: nada de beijos roubados na fila, nem mãos dadas. Nada de esconder o rosto no pescoço dele se você tiver medo de filmes de terror. Vá comer uma pizza depois, mas nada de dar comida na boca um do outro. Digam adeus no portão com um aperto de mãos. Sabe a festa que a sua tia vai dar? Ele não pode ir. Se vocês não são casados e você não mora sozinho (a) ele ou ela não pode dormir com você. Só 24h. Depois me diga como você se sentiu. Melhor, depois pense em como você se sentiria se tivesse que fazer isso por dias a fio, semanas, meses, anos. Pense se seu relacionamento seria forte o bastante para resistir a essa provação.


Treinar-se para não demonstrar emoções em público. Aprender a ter que dizer eu te amo só com um olhar. Assistir a uma formatura de quem você ama e não poder beijá-lo. Esconder-se como um criminoso para um simples carinho, um abraço de consolo, um beijo de parabéns. Chegar de viagem após semanas longe e não poder matar as saudades no aeroporto. Quantas relações heterossexuais “normais e santificadas” resistiriam a isso por anos? Quantos de nós estariam dispostos a abrir mão desse reconhecimento social, a ser encarados como doentes ou pervertidos só para poder estar com a pessoa que se ama? Quanto tempo até preferir as emoções mornas e superficiais como defesa? São só 24h. Talvez você comece a entender o que eu tenho tentado passar.





6 comentários:

MrcpC6 disse...

Muito bom, na linha dos anteriores. Tem uma fasquia tão grande que não me estranha essa nomeação, é mais do que merecida.
Muitos parabéns...
Concordo, um dia, bastava que todos os casais passassem por isso um dia, de certeza que muita coisa mudaria.

Bjo

Inspiração na Cozinha disse...

Olá, o texto é bastante interessante, porém gostaríamos de expressar nossa opinião baseadas em nossas experiências. Somos casadas há 3 anos, e no início tivemos um certo receio de expor nosso relacionamento, algo que já foi superado. Somos discretas por natureza, e isso não é de agora, pois já vivemos relacionamentos hétero e não costumávamos beijar nossos companheiros em público. Como somos pessoas normais, fazemos tudo o que pessoas normais fazem. Geralmente estamos de mãos ou braços dados, seja no shopping, no supermercado, nos chamamos por nossos apelidos carinhosos e tudo mais. Não foi sempre assim, pois no início, eu, Cris, ficava incomodada com as pessoas que ficavam nos observando, porém deixei isso de lado. Foi bem simples, colocamos em prática uma idéia que nos foi enviada por e-mail: NUNCA DEIXE QUE O OUTRO DECIDA COMO VOCÊ VAI PASSAR O SEU DIA. Foi dessa maneira que passamos a não nos preocupar com olhares curiosos. Tudo são etapas que precisam ser vencidas. A maioria das pessoas quando se descobre gay leva um bom tempo para se assumir perante si mesmo, perante a família e a sociedade, e é por esse motivo que a própria sociedade não assume uma postura de conviver com a diversidade. Se para nós o início já é difícil, imagine para quem é totalmente ignorante no assunto. Não vamos sentir pena de nós mesmos só porque não podemos ou não queremos dar um beijo em público. Vamos fazer de nossas vidas e nossos relacionamentos o mais próximo possível daquilo que desejamos. As pessoas ainda precisam evoluir sobre isso, mas enquanto isso não acontece vamos dar o exemplo, mostrar o quanto nossas vidas são comuns, pois, com toda a certeza, um dia isso será assunto do passado. Assim como há 55 anos uma mulher negra foi presa nos EUA por não ceder seu kugar no ônibus para um branco. Hoje, nesse mesmo país, um negro está sentado na cadeira de presidente. E olha que 55 anos não é nada para a história. Vamos acreditar! Yes, we can!

Philip Shimada disse...

Oi lilah.
O primeiro texto, o comentário, é meu. Obrigado por se inspirar nele, isso mostra que ,mais do que entender, você passa a afirmação daquilo que acontece.
E é bom ver que outras pessoas passam por isso, e no fim dá pra superar também.

Dessa vez sem anonimato.
:D

Helvécio disse...

Lilah,

Você é um anjo que caiu do céu. Seus textos são um perfeitos, sinceros e formidáveis de ler.

Sobre o texto, confesso que não só entendo perfeitamente o que é isso como passo por algo que torna a minha situação ainda mais delicada. O meu amor está com um sério problema de saúde, algo que coloca a vida dele em extremo risco. Moramos em cidades diferentes, não estou trabalhando e tem sido cada vez mais difícil conviver com essa angústia de saber se ele está bem, se vai ficar bem. Nunca passei por nada parecido em toda a minha vida. É doloroso ver alguém sofrer desse jeito e justamente esse alguém é aquele vc ama, vendo tudo isso longe um do outro.

Torço a cada segundo dos meus dias para que ele se recupere, que possa morar junto com ele e enfim construirmos uma vida.

Ariadny Theodoro disse...

De todos os posts que inclusive são maravilhosos este descreveu perfeitamente como me sinto .

Parabéns Lilah

Uma Historia de Amor disse...

Eu acho essa fala linda.
è digna de um filme, pela forma como é tratada e pela delicadeza de quem escreve.
Super bj carinhoso, para este exemplo de mae, Roberta Ribeiro@radha2