Ele tem 33 anos, arquiteto, financeira e profissionalmente bem sucedido. Ele não bebe, não fuma, nunca usou drogas. Sua maior aventura de adolescência foi fugir da escola aos 13 para patinar no gelo no Barrashopping e isso lhe rendeu um mês de castigo sem sair de casa. É do tipo quieto, um pouco tímido, com um tanto de nerd, escondido atrás de óculos charmosos e um sorriso meio de lado. Ele fez todas as coisas que bons filhos fazem: estudou, tirou boas notas, foi a igreja com os pais, ouviu horas de conselhos e sermões. Nunca foi rebelde, ele prefere ouvir que falar e ainda chama os mais velhos de senhor. Faz cinco anos que seus únicos contatos com os pais são telefonemas rápidos e desconfortáveis por 10 ou 15 minutos a cada 2 semanas. Faz dez anos da última vez que pisou na casa em que se criou na infância, numa cidade do interior do Rio de Janeiro. Ele adora a cidade, mas mora em São Paulo por que torna mais simples encontrar desculpas para não visitar. O motivo? Ele é gay.
Não existiu nenhuma cena de ódio ou gritos e acusações quando ele contou aos pais. Eles não são pessoas violentas, nem religiosos fanáticos. Na verdade, provavelmente, eles nem percebam que aos poucos ele se afasta cada vez mais da vida deles. Talvez eles acreditem que fizeram o melhor. Talvez eles tenham feito seu melhor, quem sou eu para julgar? Mas na sua postura existe uma armadilha bem comum em muitas famílias que tem um membro homossexual: o silêncio e a distância, fantasiados de respeito. Se você perguntar aos pais de Marcos se eles respeitam a orientação sexual do filho, eles responderão que sim. E em seguida concluirão o raciocínio com um MAS. E nesse mas, cheio de regras e detalhes nem sempre claramente ditos, reside a causa desse progressivo e contínuo afastamento.
Respeito você, mas não quero saber. Respeito você, mas não quero isso dentro da minha casa. Respeito você, mas não me conte nada. Respeito você, mas não quero conhecer seu namorado(a). Respeito você, mas não posso aceitar. Respeito você, mas continue a fingir que eu não sei de nada. Talvez nada disso tenha sido dito claramente entre eles, mas Marcos sabe que comentários sobre sua vida afetiva não são bem vindos. Sua mãe jamais perguntou se ele conheceu alguém especial, se está saindo com alguém. Por dois anos ele morou com um namorado, e quando ligavam para ele agiam como se o rapaz fosse um simples companheiro de quarto. Nunca nem mesmo perguntaram se ele era mais que isso....justamente para não ouvir a verdade.
Marcos não é um homem triste. Pelo contrário, seu senso de humor é um ponto alto. Ele não foi vítima de abuso de seus pais ou sofreu qualquer privação de conforto material. Seus pais bancaram seus estudos, foram a sua formatura e provavelmente vivem alardeando seu sucesso financeiro e seu talento que vem ganhando alguma fama no mundo do design. Mas a fenda que existe entre eles talvez nunca vá cicatrizar. Por que existe uma parte enorme da vida dele que não pode ser compartilhada. Existe tanta coisa que ele precisa calar e se policiar para não dizer, que depois de 20 ou 30 minutos de conversa ele está exausto de tanto filtrar informações. A viagem a dois que ele não pode mostrar fotos, o restaurante que ele recomenda, mas não diz que pertence a um ex, uma simples história engraçada que envolva o parceiro...cansa viver duas vidas separadas que não podem se tocar. Então o que resta a Marcos? Manter suas duas vidas o mais distante possível uma da outra. E ai, inevitavelmente, alguma delas sofre por menos atenção...e ele sofre por não conseguir dar conta de tudo do jeito que ele gostaria.
Eu sei que a minha geração, a sua geração, pai e mãe que me lê, não foi educada para conviver com a diversidade. Nós fomos ensinados a colocar cada coisa em sua gavetinha. E homossexualidade era uma gavetinha inexistente. E sem saber lidar com isso, nós fazemos o que parece menos traumático: ignoramos, numa tentativa inútil de que aquele “problema” suma. Perdidos em tantos conceitos errados e ignorando a verdade, acreditamos que permitir a presença de um(a) namorado(a) ou conversar sobre isso é uma forma de “estimular a homossexualidade”. Torcemos para que ele ou ela ache uma gavetinha mais confortável, que não bagunce tanto a nossa vida e nem nos coloque em cheque com tantos preconceitos. Muitas vezes, na maioria das vezes, acreditamos estar fazendo realmente o que é melhor para eles. Eu acredito que os pais do Marcos realmente tenham essa certeza. A vida dele seria tão mais fácil se ele entrasse naquela forma que a sociedade diz ser a correta. O problema nesse raciocínio é que isso jamais vai acontecer! Por mais que seu filho te ame, por mais que ele queira aceitação e afeto. Por maior que seja a vontade dele de te fazer feliz, ele não tem escolha nesse assunto. E aí é que reside a diferença: por que você tem escolha.
A escolha entre acolher ou afastar. Entre tentar conhecer ou rejeitar. Em ter um filho inteiro ou só parte dele. Não há nada de errado em ter dúvidas. Não há nada de incorrigível em ter medo, não saber o que fazer ou mesmo ter feito coisas erradas. O erro é permanecer nesse mesmo ponto. VOCÊ TEM ESCOLHA. Procure ajuda profissional se achar preciso. Ou grupos de pais. Converse com quem já passou por isso. Leia. Se informe. Procure respostas. O silêncio pode até parecer respeitoso, mas só comunica indiferença ou vergonha. Não tenha medo de dizer ao seu filho(a) que você está tendo problemas em aceitar, em compreender, em conviver, mas que está tentando. Não tenha medo de dividir esse momento com ele(a).
Marcos está namorando. E de novo ele precisa começar a se policiar ao conversar com os pais para não citar o nome do parceiro, para não gerar silêncios constrangedores. De novo ele precisa dividir seu natal e ano novo por que não pode ter as duas metades da vida num mesmo lugar. Eu sei que um gesto de seus pais poderia mudar isso hoje. Por que no fim, não são seus pais que respeitam sua orientação sexual, é Marcos que faz um esforço sobre humano para respeitar os preconceitos dos seus pais.

12 comentários:
Muito bom o texto. Realmente excelente. E o melhor é esta frase final, que hoje nos reflete toda realidade para as pessoas que já conseguiram se assumir.
Olha Lilah, comecei a ler seu blog hoje, pois uma amiga tiha me indicado, e estou muito emocionado, mesmo. Eu tenho 19 anos, sou gay, e contei para minha mãe domingo passado. Felizmente ela reagiu de maneira melhor do que eu esperava, inclusive falou que quer sim estar ciente da minha vida amorosa... Só que ela ainda tem muitas dúvidas, como você mesmo disse, ela nasceu em uma sociedade onde não se aprendeu a conviver com a diversidade... Ela não usa a internet, senão a aconselharia a visitar seu blog... Simplesmente lindo...
Um abraço....
Gostei muito. Gosto sempre. Sigo recomendando. Bjs
Muito bonita história. Perseverança mostra do que somos capazes. Apesar de infeliz, é o que resta, quando nos é aplicado o silêncio do "respeito". muitos de nós vivem assim... divididos, separando realidades...
Olá Lilah
Mais uma vez a sua sensibilidade é tocante. Li o texto com lágrimas nos olhos. A história contada se repete na vida de uma série de outras pessoas. Eu sou um bom exemplo disso. Há quase um ano que não vejo minha mãe. Moramos no mesmo estado (Bahia); eu estou na capital e ela na cidade do interior onde fui criado. Como no texto, ela nunca foi desrespeitosa comigo. A sua forma em relação a mim e a meus irmãos praticamente não foi alterada. Mas enquanto os namorados de minha irmã são convidados a visitá-la no interior, ela sequer fala sobre a possibilidade de eu estar com alguém. Da ultima vez que nos falamos, por conta do grande afastamento entre nós, ela disse a seguinte frase: "Não deixe que nada nem ninguém te afaste de mim". Essa frase precedida da conversa que tivemos deixa claro que ela se referia a um possível namorado. Eis que eu respondi: "Não tem nada nem nenhum namorado me afastando de você" e a conversa seguiu com ela mudando de assunto.
Li o texto com lágrimas nos olhos. Se a descrição do rapaz fosse "Ele tem 26 anos, estudante de engenharia..." seria de mim que vc estava falando. E como sabemos que outros Leandros, Carlos, Caróis, Carlas... existem a por ai esta história se aplica a todos os casos.
Muito obrigado por compartilhar toda a sua sensibilidade conosco. ler textos como os seus nos fazem sentir mais fortes e ter a esperança de que um dia todas as pessoas serão como você.
Lilah, querida.
Só para constar: minha geração (década de 1990)tbm não foi educada para lidar com a diferença, aliás, geração nenhuma até agora foi, haha.
Lindo texto, é sempre uma delícia passar por aqui.
Acho interessante a discussão sobre respeito, porque nós brasileiros nos achamos muito tolerantes, compreensíveis etc. Mas será que somos msm? Não é preciso pensar duas vezes para concluir que não, nós só acreditamos que somos, porque precisamos passar essa imagem de campeões morais. O respeito que os pais têm com o rapaz do texto, "implica certo essencialismo, uma generalização, que vem da compreensão de que as diferenças são fixas, definitivamente estabelecidas, de tal modo que só nos resta respeitá-las", é um sentimento falso, mascarado e, infelizmente, compreensível pela maioria.
Otimo post, respeito é vc considerar o outro sem preconceito algum, é aceitá-lo da forma como é e o faz feliz. Não estou aqui para justificar nada nem ninguem, mas imagino que deve ser dificil para um pai aceitara opção sexual do seu filho, mas acredito que só o amor e o respeito ajudam. Não sei o que é ser mãe de homossexual, ainda, pois tenho filhos pequenos, mas como mãe, acredito que o amor que tenho por eles deve ser maior do que qualquer preconceito. E que devo ser forte não só por mim, mas para estar ao lado deles apoiando a sua escolha,seja ela qual for. AMOR, CARINHO E RESPEITO, acho que nehum pai deve renegar seus filhos por suas opções, devem sim apoia-los, pois suas escolhas os levaram a enfrentar um mundo sordido e cruel.
Bjão
oi lilah
ah algumas semanas alguns meus amigos começaram a sumir....
eles não podiam sair comigo porque eu sou gay
as mães de alguns deles simplesmente agem como se gostassem de mim, mas no final elas nao gostavam... depois disso eume senti enganado, como se tudo pelo que eu lutei e os amigos que tantas veses eu disse eu te amo fossem uma ilusão criada pra me fazer acreditar que tudo estava bem, que com eles eu sempre seria feliz...
eu gosto das mães dos meus amigos, não tenho nada contra elas... só queria que elas soubessem disso e que só por ser gay nao vou fazer mal a ninguem.... tenho ate medo que façam mal a mim por isso....
nome? Leôni ~ 14 anos
Nossa, excelente texto! Cheguei a me emocionar, porque eu vivo uma situação semelhante com o meu pai. Ele finge que nada acontece, não tocamos no assunto, e assim seguimos, em meio a mentiras. É muito ruim! Como eu gostaria que meu pai algum dia se conscientizasse disso!
Beijos!
Lendo seu texto vejo que fui abençoada por Deus pois fui educada a não ter preconceitos,(Pai negro-filho de militar e Mãe branca-filha de agricultor) sou da dácada de 70 tinha como amigos os excluidos (gays e algumas meninas cuja reputação não era tão boa) morava numa cidade de 17.000 habitantes, sempre reuni meus amigos em casa e todos eram muito respeitados e amados também pelos meus familiares, conversávamos sobre seus namoros, suas dúvidas e posso dizer que eu aprendi muito. Hoje tento ensinar minha filha da mesma forma.
Lilah, acabo de conhecer seu blog.
Minha irmã caçula é lésbica e ajudei-a a revelar sua orientação sexual para nossa mãe. Jamais me esquecerei. Era o dia do meu aniversário, estávamos só as 3 em casa e ela contou, com meu apoio. A princípio minha mãe disse que já imaginava, mas que estava um pouco chocada. Depois, me confessou que tinha outras expectativas para minha irmã. Disse "sempre sonhei que ela se casaria na igreja com um bom marido. Quem vai cuidar dela agora?". Respondi que isso era muito machista e que ela teria as mesmas chances de ser feliz do que qualquer um.
4 anos depois, vejo que minha mãe aceita e respeita minha irmã. Elas moram juntas e minha mãe sempre está a par da vida amorosa dela. Minha irmã nunca teve uma namorada, mas tenho certeza que o dia em que tiver as portas da minha casa e da casa da minha mãe estarão abertas.
Penso que, quando tiver meus filhos, eles conviverão desde cedo com a diversidade. Farei questão de que saibam que a tia gosta de mulheres e que vejam ela com sua namorada/esposa. Toda forma de amor vale a pena!
Torço por uma sociedade mais livre, que valorize e estimule o AMOR, independente da forma como ele é manifestado.
Li no Lobo. Texto notável.Parabéns.
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