Segundo a pesquisa Vox Populi encomendada pelo portal IG, 70% da população brasileira é contra a adoção por casais gays. A pesquisa não lista os motivos apontados por essas pessoas, mas demonstra que a rejeição é maior no Norte e Nordeste e entre pessoas religiosas ou mais velhas. Não acho que a gente precisa ir muito longe para tirar algumas conclusões a respeito dos resultados: a população com menor grau de escolaridade, mais idosa ou religiosa, rejeita a adoção por questões ligadas a tradição ou por preceitos religiosos.
A adoção é permitida a toda pessoa, independente de cor, raça, credo ou orientação sexual, que comprove condições materiais e emocionais de cuidar da criança que vai ser adotada. Exige-se, além disso, que o adotante tenha pelo menos 16 anos de diferença para o adotado, para que se configure uma relação paternal. O que está em discussão na verdade não é se o adotante é gay ou não. Adoções por homossexuais vem sendo concedidas pela justiça já a bastante tempo. O que se discute aqui é a adoção conjunta.
Quando um homossexual adota o faz, via de regra, como solteiro, tornando-se o único responsável pela guarda, educação e sustento da criança adotada. Ora, a adoção não existe por que pais sem filhos querem crianças. A adoção existe por que crianças órfãs PRECISAM de pais. Logo, a adoção deve ser pensada em função da criança. Do que é melhor para ela. A adoção por apenas um dos parceiros deixa essa criança sem a proteção legal que a dupla filiação lhe daria. Em casos de separação ela não tem direito a pleitear pensão, não recebe herança, não pode ser incluída como dependente em planos de saúde e tantas outros direitos. O pai ou mãe não adotante também não tem qualquer segurança. Não pode tomar decisões em conjunto, não tem direito de viajar com a criança, não tem direito a visitas... Essa criança, que é a pessoa mais importante nessa decisão, é a mais prejudicada ao não ter seus direitos reconhecidos. E por que as pessoas ainda rejeitam a adoção por homossexuais?
O primeiro argumento é que uma criança precisa de pai e mãe. Num mundo ideal? Talvez. Mas essa criança que será adotada não tem nem pai nem mãe! Ela vive institucionalizada, dividindo o espaço com várias outras, sem noção de família. Heterossexuais sem filhos, em geral, escolhem bebês, brancos e do sexo feminino (segundo a vara de família do RJ esse é o padrão em 67% das intenções de adoção). Crianças maiores, negros, mestiços e deficientes abarrotam abrigos enquanto se afirma que eles precisam de pai e mãe. E eles crescem sem nenhum dos dois! Tal justificativa também é facilmente derrubada por uma simples comparação: e os filhos biológicos de pais e mães solteiros ou viúvos? Deveriam também ser entregues a famílias substitutas já que precisam de pai e mãe para se desenvolver plenamente?
O segundo argumento mais usado é de que, sendo criados por homossexuais, as crianças seriam estimuladas a ser homossexuais. Ou que se tornariam forçosamente homossexuais. Se tal argumento fosse lógico, então os filhos de casais heterossexuais deveriam ser necessariamente heterossexuais e não existiriam homossexuais no mundo e nós nem estaríamos tendo essa conversa! Ninguém “vira gay” por que convive ou é criado por um homossexual. A sexualidade não é uma escolha, não se previne com educação, não se aprende por imitação e nem é imposta. Pelo contrário, ela se impõe, independente do fato de você ter pais hétero ou homossexuais.
Existem também os profetas do apocalipse que alegam que a criança seria vítima de abuso. Esses igualam homossexuais a pedófilos e esquecem um dado estatístico que claramente mostra o absurdo de tal comparação. Cerca de 85% de todos os casos de abuso sexual são cometidos contra meninas por homens heterossexuais, em geral conhecidos dos pais e que gozam de prestígio e confiança. Entre os 15% restantes existem casos de meninos vítimas de abuso heterossexual por tias, professoras ou conhecidas e meninos e meninas vítimas de abuso homossexual. Homossexualidade e pedofilia não tem nenhuma relação ou teríamos que acreditar que 85% dos homens heterossexuais são pedófilos, o que é absurdo. Além disso, o processo de adoção de uma criança é conduzido por Assistentes Sociais e Psicólogos, além da própria justiça, e somente pessoas que comprovem condições idôneas podem adotar. A chance de uma criança sofrer maus tratos ou abuso sexual é a mesma, sendo adotada por heterossexuais ou homossexuais.
Por fim, alegam alguns que a criança adotada por um casal em relacionamento homoafetivo, seria vítima de bullying e constrangimento na escola. Ora, então para resolver um problema (o bullying e a intolerância) vamos criar outro: proibir que pessoas adotem e deixar a criança crescer numa instituição. Ela vai crescer sem família, mas olha só, não será vítima de bullying por ter dois pais ou duas mães. Ora, faça-me um favor, o problema não é adoção, o problema é que não se ensina tolerância e convivência a diversidade na escola e na sociedade.
Crianças estão crescendo sem pais, sem família, abandonados em instituições. Casais homossexuais que querem adotar estão sendo impedidos por preconceitos sem qualquer fundamentação científica. Os dois lados sofrem e nada vem sendo feito para garantir o bem estar dessas crianças, que deveriam ser o foco dessa discussão. Ser pai ou mãe vai muito além da sua capacidade de gerar filhos em relações sexuais. Algumas pessoas querem ser pais e tem toda a capacidade para isso. Por que impedi-los baseado apenas em com quem eles dormem?
PS: Colaboração do @LucBianchi que está preparando seu TCC no assunto. Depoimentos de adoções bem sucedidas interessam muito a ele!

9 comentários:
Super crítica essa situação. Me convém, e emociona muito. POrque eu tenho muita vontade, claro, de ter uma família completa. Pelo menos três filhos rsrs. E ver todo esse preconceito acontecendo, atrás até das crianças que entram na discussão. Isso é ridículo. E já existem vários exemplos de casais homo que adotam e levam uma vida muito melhor do que familias "normais".
Beijão Lilah.
Pois é...e digo que criança não precisa de pai e mãe, precisa de amor!
Olha Lilah, nem vou comentar muito porque você sabe minha opinião sobre o assunto. Mas vou te dizer, a cada dia que passa, fico com mais vergonha de ser gente. Na próxima vida quero ser cachorro. Esses nem ligam se quem cuida deles é preto, branco, homossexual, rico ou pobre. Só querem amor e só querem transmitir amor, sem preconceitos!
bjs
Pois é... isso só mostra como o nosso belo e democrático estado é Laico... Ainda usam argumentos preconceituosos para apoiar esse tipo de decisão... Aí eles vem, e tem a cara de pau de dizer que o Brasil é um país Laico...
Um abraço Lilah,
Até o próximo
É, Lilah... eu penso que alguma coisa já mudou e está melhorando. Mas o que tem ficado pra trás, o que não melhora, é GRANDE demais!
Por puro preconceito, 'apoiam o abandono'. É doloroso ver pessoas de bem, com condições plenas, não poderem adotar crianças só pq são homossexuais. Oi? Melhor é a criança viver abandonada e em péssimas condições. E sem amor! Ou com pouco amor...
Enfim... to mais ou menos como a Lola... não posso comentar mto senão faço outro post aqui! rs
Beijos
Lilah, antes ter 2 pais ou 2 mães do que não ter nenhum, quanto a criança crescer estimuladas a serem homossexuais? Onde ja se viu isso? Nenhum pai de filhos homossexuias ou não estimula seu filho a isso, a criança ja nasce assim, ponto. Isso é um preconceito velado, é muito mais facil deixar a criança em um abrigo pela vida toda do que ter pais amororos que querem seu bem estar, mas só pq sua opção sexual não é igual a maioria eles não podem ser pais? Incoerencia, Ignorância e falta de vontade de ajudar o outro.
Bjão
Mesmo sendo homossexual, eu nao gostaria que meus filhos fossem gays. Obvio que nao por preconceito meu, mas pelo sofrimento que a sociedade preconceituosa pode causar nos meus filhos. Entao é claro q nenhum pai "estimularia" propositalmente essa homossexualidade. Mas nesse assunto a sexualidade é o que MENOS importa.
Como já foi dito, crianças precisam de amor, carinho e atençao.
Sempre achei o argumento de que a criança sofrerá Bullying um absurdo. Como assim, proibir alguém de adotar porque a criança pode sofrer bullying na escola? Oras, o bullying só existe por causa dessas mesmas pessoas que não dão atenção as coisas e deixam a bagunça rolar solta nas escolas, achando que não há nada demais. Ocupação desornedada também é um problema sério, mas invés de resolver as questões sociais, preferem explodir as favelas? Que mundo é esse?
Não consigo entender...
Um beijo Lilah!
Não sabia que a adoção era dessa forma, mas faz sentido, afinal o casamento não é legal. Gostei muito de seu blog, venho do Blog do Lobo, lendo o texto anterior a esse e me impressionei com o fato de uma mãe escrever, vou achar interessante suas idéias com certeza....... beijos!
Ah esqueci de dizer rs, ouvi de um pedagogo gay, que e contra adotar uma criança não somente pela questão do bullying, mas "pela forma como essa criança vai crescer" e estruturar seu psicológico, ouvi o absurdo da influencia na sexualidade do garoto, não sou psicólogo, mas sei que precisamos de uma figura paterna e outra materna, feminina, mas não necessariamente uma mãe, qualquer mulher pode assumir esse papel, Freud fala muito disso, então acredito que devemos vencer todo o preconceito interno também, esse com certeza deve ter visto muitos acontecimentos tristes em sua profissão, mas não pode deixar a insegurança influenciar com pensamentos como esse, já eu sou bem radical, digo: tanta criança órfã, nas ruas, e tantos casais homossexuais querendo adotar, cheio de amor para dar, por que não? 70%? Que preferem que existam mais marginais nas ruas? Porque o serviço social/governo os abandonam na mioridade...... era mais ou menos isso rsrs outro bjuuuu!
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