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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Da Negação do Afeto

"Os gays em geral são acusados de serem promíscuos, infiéis e volúveis. Mas ninguém se lembra que pra um relacionamento intimo entre duas pessoas se validar, ele precisa do aval do cotidiano. Que nos é negado. São pequenas coisas que vão  lentamente aproximando e solidificando esse vínculo.Um olhar. Um afago. Um beijo roubado. As mãos dadas em apoio. Um abraço demorado depois de uma crise de ciumes sem fundamento."


De onde nasce a intolerância a livre manifestação de afeto entre homossexuais? Alguns dirão que nasce da estranheza, do não conhecido. E terão razão, em parte. Crescemos num mundo que nega a existência do afeto sexual entre indivíduos do mesmo sexo e por extensão classifica tal mainfestação como doentia ou, no mínimo, não natural. Principalmente entre meninos, essa intolerância começa muito cedo, quando ainda crianças são reprimidos qualquer gesto afetuoso que eles possam ter em direção a outros meninos. Conheço pais que nem sequer beijam seus filhos homens, por um medo patológico de que eles se tornem "delicados" demais ou despertem "tendências homossexuais", seja lá o que for isso. Não é de se estranhar que, crescendo num mundo onde tal situação inexiste, deparar-se com um beijo gay no meio da rua cause reações que vão da simples surpresa a violêcia gratuita.

Não existe receita mágica nesse assunto, mas eu acredito por experiência pessoal que a melhor forma de lidar com isso é saindo gueto. É ganhando visibilidade. Trata-se de uma revolução silenciosa. Torna-se visível e exigir seu direito. Anos atrás deficientes físicos viviam confinados em suas residência, muitas vezes escondidos pelos familiares como uma vergonha. Crianças deficientes eram condenadas ao isolamento das escolas especiais por que conviver com elas poderia causar trauma aos ditos "normais". Ganhar visibilidade e sair do gueto foi o que garantiu, ainda que timidamente, que algo mudasse para elas.

Eu estou dizendo que você deve sair nas ruas e beijar seu/sua parceiro(a) em qualquer lugar? Não. Sonhadora sim, idiota não. Existem lugares onde você, por uma questão de auto preservação, vai ter que ser discreto(a). É injusto, mas real. No entanto, pequenos gestos como andar de mãos dadas ou um simples abraço, um beijo roubado na hora da despedida são revoluções muito mais eficientes que enormes discursos ou protestos. Por que dizem ao mundo que você existe. está ali e não vai abrir mão do seu direito..E por que "acostuma" os olhos daqueles que, sendo mais abertos, só se sentem surpresos por ver algo fora do seu dia a dia. Homofóbicos provavelmente continuarão homofóbicos, mas a grande parcela da população que apenas não está acostumada com isso, vai aos poucos se tornando familiar.

Existe no entanto, um segundo aspecto que eu acho importante abordar. A negação do afeto. Para muitos a homossexualidade ainda é vista como uma simples questão sexual. Não se acredita que se possam estabelecer relações homoafetivas estáveis e baseadas em amor. Negar o direito a manifestação de carinho público entre homossexuais com base em argumentos como o de que crianças não devem ver isso, passa exatamente por esse viés. Por que crianças podem ver um beijo entre heterossexuais e não entre gays? Onde está a diferença que, torna o primeiro um ato de amor e o segundo algo a ser escondido?

A maioria das pessoas não consegue formular uma resposta satisfatória para essa pergunta. Quando você os pressiona, a resposta virá de forma confusa, misturando um possível estímulo a homossexualidade com o fato de que tais manifestações são vergonhosas e não um simples gesto de afeto.E  por que? Por que no imaginário dessas pessoas ainda repousa a crença que a homossexualidade é apenas uma escolha, uma opção sexual desregrada, uma promiscuidade que precisa ser escondida dos olhos inocentes ,para que não seja seguida. 

Eu vivi duas situações opostas que me fazem acreditar no poder da educação das crianças. Quando Lucas saiu do armario, meu filho mais velho tinha vinte e um anos e o caçula apenas sete. Para Lipe, nunca foi algo fácil aceitar a sexualidade do irmão. Muito menos vê-la se transformar em algo concreto na forma de um namorado e beijos roubados no quintal. Foi algo que ele lutou para entender e precisou superar preconceitos que, nem eu e nem ele, sabemos de onde vieram. Saulo, aos sete, tinha questões muito mais concretas para se preocupar. A sexualidade do Lucas era só um detalhe. Ele cresceu vendo TV no chão enquanto Lucas deitava no sofá com o namorado. Brincando na piscina enquanto os dois se divertiam juntos. Tomando café da manhã com eles de pijama ou vendo os dois dizerem boa noite e irem para o mesmo quarto. Aos 13 ele tira de letra tal situação. E lida bem, inclusive, com a homofobia por tabela, da qual por mais que eu tente, não posso protegê-lo

Ensinar as crianças que amor é amor, não importa a forma em que se manifeste e deixar que cresçam num ambiente de sexualidade sadia é garantir adultos saudáveis, bem ajustados e sem medo de algo, só por que eles não conhecem. Pergunte ao meu caçulinha.

11 comentários:

Jock Dean disse...

Eu sempre me pergunto o que dizer após ler seus textos, meu anjo. Acho que qualquer complemento soará redundante. Mas falando da minha experiência, já troquei beijos em praças de alimentação de shoppings e mesmo na rua e até me roubaram um dentro do ônibus. Houve quem torceu o nariz, quem gritou "viados" e quem olhou e deu um sorriso cúmplice. O que falta mesmo é naturalizar esse comportamento, mas nós (os gays)ainda temos muito medo e preconceito. É preciso não só educar os homofóbicos.
Parabéns!

Vivi Oliveira disse...

Cada dia aprendo mais com suas experiências,realmente olhamos quando vemos um casal se beijar em público, mas eu o faço até com um casal hetero,acredito mesmo que em alguns é mera curiosidade e surpresa, em outros é preconceito mesmo,mas como vc disse se mostrar ainda é a melhor maneira de inibir a violência,pois o agressor tem que cometer o ato em público, tem que discriminar e se assumir preconceituoso para todos e isso inibe um bocado esses comportamentos. Thank you Lilah por partilhar conosco sua experiência! Cheiros! Vivi Oliveira

Daniela F disse...

esse lance de a orientação difernete ser só sexo e não afeto é um dos troços mais ofensivos do mundo. Eu como bi vejo até gay dizendo que só quero saber de safadeza, o mesmo argumento da homofobia. Eu por minha parte digo q safadeza todo mundo pode querer, heteros inclusos. sexo e amor é um troço q existe em todo mundo independente da orientação.

Giuliana: disse...

Lindo texto, Lilah!

E com certeza o seu caçula é um exemplo.

Beijos.

material girl disse...

Eu tenho pouco contato com gays, realmente não poderia falar muito a respeito, mas não tenho motivos para discriminar alguém por sua opção sexual.

Uma vivência interessante que tive ano passado, foi quando estive em SP e a convite de uma amiga fomos a uma festa, que estava muito chata, e resolvemos sair dali. Minha amiga de SP conhecia várias pessoas ali, e nos convidaram para ir a uma boite ali perto, chamada Gloria.

Eu adoro dançar, e não pensei duas vezes, e ao chegar lá descobri que era uma boate gls (ou a sigla que for, rs), um dos rapazes que nos levou conhecia muitos por lá, e fomos super bem recebidas, ambiente divertidíssimo, música ótima, pretendo voltar quando retornar a SP, adorei.

A amiga que estava no mesmo hotel que eu, talvez por ainda ser muito jovem, teve muita dificuldade em lidar com moças se beijando, homens namorando, e pegou um táxi e me largou lá.

Assim, fiquei com os outros amigos, antigo e novos, e me senti tão bem, cada um na sua, ou dançando, ou namorando, ou conversando. Na verdade, me senti melhor lá do que em vários lugares em que já fui, onde as pessoas não se divertem, passam todo o tempo tirando fotos para publicar em suas redes sociais, rsrs.

Para quem não conhece, recomendo, um lugar muito legal, até conheci Dimmy Kierr neste dia, foi um oi rápido.

Conviver com os gays de perto, de coração aberto, é decorrência da maturidade de cada um, onde a opção sexual do outro não vai te mobilizar, ou bater de frente com a sua.

Gente é gente, não importa o sexo, ou como faz.

Patricia Daltro disse...

Sabe o que acho? Que o que falta é amor. Pura e simplesmente amor. Por que quem ama, aceita o outro do jeito que ele é, aceita as escolhas que este faz e acima de tudo, a única cobrança é que o outro seja feliz.

Álex disse...

Cara Lilah,

Conheci o seu blog há alguns minutos atrás, através do Twitter (http://twitter.com/NoticiasLGBT) e estou tomado de uma felicidade e esperança que não sentia a muito tempo!

Estou emocionado com seu texto, seu blog, sua atitude e o sentimento com que fala. A partir de agora tens em mim um fã e seguidor fiel!

Acredito que é de crucial importância termos pessoas como você engajadas nessa luta pela garantia dos direitos homoafetivos. Mulher, mãe, professora, cidadã brasileira lutando pelo direito ao respeito e a felicidade, meus direitos, seus direitos, direitos dos seus filhos.

Obrigado,
Grande abraço.

christopher disse...

Lilah,
vou imprimir esse texto e dar pra minha mãe ler!

Seus filhos devem se sentir muito gratificados e privilegiados por terem nascido em um lar oriundo de uma mãe tão sábia e amorosa.

Parabéns, querida e, continue nos fazendo emocionar com suas criações intelectuais.

Anônimo disse...

Nossa eu só posso dizer que fiquei realmente emocionado ao ler o seu texto. Eu já tentei explicar isso muitas vezes pra muitas pessoas e quase nunca tive sucesso. Alguns dos meus amigos simplesmente não entendem que quanto mais eles se esconderem pior fica. Eu já tive experiências semelhantes à do nosso colega Jock Dean e a reação das pessoas foi exatamente a mesma em todas as situações. Chegeui a debater o assunto com um segurança de um shopping em que entrei de mãos dadas com meu então namorado, encarei mesmo, sabe. Disse a ele: Porque aquele casal pode andar de mãos dadas aqui e eu não, você tá me discriminando, é isso? O segurança não soube o que dizer. A maioria dos meus amigos acham que me arrisquei demias me expondo dessa forma, mas acredito que se ficarmos nos escondendo em nome de um suposto "respeito por aqueles que não estão acostumados a ver essas coisas" (é como eu ouvi de alguns amigos. Acredita? Afff, fico looooko com isso) nossos direitos jamais serão reconhecidos. É preciso ousar às vezes para alcançar o objetivo desejado. Bjos e parabéns!!!

Anônimo disse...

Oi Lilah,

Adoro seus posts.

Quando você fala sobre a questão da negação do afeto acho que é uma postura que a sociedade normalmente tem em relação aos gays, acho que pela própria postura machista da sociedade o homem é sempre visto ligado ao sexo. Talvez até por isso seja mais fácil ter casais lésbicos nas novelas globais (sic) do que casais gays, vide a atual novela das 19h, mataram o casal gay e agora aparecem com um casal lésbico.

Em torno do casal lésbico também existe todo aquele fetiche, então lésbicas femininas são bem aceitas, desperta desejo ver duas MULHERES se beijando, agora se as mulheres são masculinas ou não atendem aos padrões masculinos também acabam sendo reprovadas.

Até tem aquela piada comum sobre a questão das lésbicas quererem sempre compromisso sério e os gays serem tidos como volúveis... essa é uma herança que ainda carregamos da sociedade machista.
O afeto, a vontade de constituir família é mais aceita pela sociedade em casais de mulheres (homofóbicos nem consideram o que fazemos como sexo), para os casais de homens a sociedade só visualiza sexo sem compromisso, demosntrações de afeto são mais ofensivas nesses casos.

Você troca informações com mães de lésbicas (femininas e masculinas)? Queria saber se em algum momento esse contato c/ a sociedade é um pouco diferenciado.

Linkei seu blog no meu!
Beijos
Liana

Lilah disse...

Obrigada a todos pelos comentários.

Sir.Álex, muito obrigada pelas palavras gentis e por ser um seguidor. O trabalho é árduo e não será da noite para o dia que resolveremos isso, mas eu acredito que chegaremos lá!

Christopher, espero que o texto possa de alguma forma ajudar vc e sua mãe. Dê notícias.

Anônimo, essa é uma luta diária. Saber dosar quando podemos brigar e quando é mais seguro esperar é complicado mesmo. Mas vc estava certo em exigir seu direito. Essa é a revolução silenciosa!

Liana, Meu contato com mães de lésbicas é bem pequeno. A maioria dos amigos do meu filho são homens, mas eu adoraria trocar experiências no assunto. Hoje a tarde estarei linkando os blogs amigos e o seu estará aqui com certeza. Obrigada pela visita.