Eu já falei um pouco desse tema, mas depois dos dois últimos posts eu recebi novamente perguntas sobre o assunto. O que fazer quando existem crianças? Irmãos “expostos” a homossexualidade podem se tornar homossexuais? Devo dizer a criança que o(a) irmão(ã) é gay? Como explico a ela o que isso significa? Não seria melhor esperar ela crescer? Ela não vai sofrer com a homofobia na escola e na rua? É justo que uma criança passe por isso por causa da sexualidade do(a) irmão(ã)? Ver o(a) irmão(ã) com um(a) namorado(a) não vai traumatizar a criança?
Depois do outing do Lucas eu tomei a decisão de manter com ele a mesma relação que mantinha com os dois mais velhos. Que traziam namoradas em casa e tinham permissão para dormir com elas lá, desde que os pais delas também estivessem cientes. Eu abri minha casa para os amigos gays dele, como sempre esteve aberta aos amigos héteros dos dois mais velhos. E claro que isso gerou toda uma série de discussões dentro da família. No caso, a argumentação que eu mais ouvi é que, além de estar apoiando o “desvio” do Lucas, eu estava “expondo” o Saulo, que era só uma criança e ficaria traumatizado com isso ou, horror dos horrores, podia “virar” gay também.
Minha opção com os meninos, todos quatro, sempre foi de ser o mais sincera possível, fosse em que assunto fosse. E não foi diferente com o Saulo. Aos sete anos ele não tinha noção do que era ser gay, o que significava viado ou por que de repente todo mundo vivia brigando lá em casa. Eu recomendo que se faça o mais simples: explique apenas o que a criança pode entender. Não minta e nem enfeite a verdade, não fique dando voltas. Quanto mais escondido algo é, mais comunica a criança que existe algo feio ou errado nisso. O irmão é gay? Diga a ele isso. Seu irmão (ou irmã) é gay. Ele gosta de namorar meninos e não meninas. Ou ela gosta de namorar meninas e não meninos. Responda de forma clara se ele perguntar algo. Explique que algumas pessoas não entendem isso e falam besteiras. Que essas pessoas, às vezes, podem ser más por causa disso, mas que se trata de algo natural e não existe nada de errado com o(a) irmão(ã) dele.
Não afaste seus filhos. Não roube deles a cumplicidade, o afeto, o amor que deve existir entre irmãos. No caso de adolescentes tenha muito cuidado em não estimular a homofobia. Já basta a pressão do grupo. E tenha tolerância zero a violência. Não importa se ele está chateado, ele não pode e você não vai permitir que ele agrida o irmão. Acolha os medos, converse e tente entender o por que da raiva, se ele estiver sendo vítima de bullying por causa da sexualidade do irmão, intervenha. Mostre que você entende e está do lado dele também, mas que a culpa não é do outro, mas de quem está machucando-o. Se for necessário, busque auxílio profissional. Tente ao máximo preservar a relação de afeto entre os irmãos.
O que mais preocupa os pais é que a homossexualidade de um filho possa, de alguma forma, induzir o mesmo no outro. Isso não tem nenhuma comprovação e nem faz sentido, mas se perpetua muito mais devido a culpa que alguns pais carregam. Por imaginar que de alguma forma interferiram, foram responsáveis pela homossexualidade do filho, eles projetam isso na relação entre os irmãos. Não nos tornamos mais altos por conviver com pessoas altas e nem nos tornamos mais morenos ao conviver com negros. A sexualidade é inata. Conviver com um irmão gay não vai mudar a orientação sexual de ninguém.
Eu não estou aqui para dizer como você deve conduzir a sua casa. Existem pais que não permitem que filhos durmam com as namoradas em casa. Que se sentem incomodados se o filho beija uma menina na sala na frente deles. Essas regras de conduta são só suas e fazem parte do acordo de cada família. O que eu defendo é que exista equidade: aquilo que você permite a um filho, permita a todos. Se proíbe, proíba a todos.
Eu tenho quatro filhos e um quinto a caminho. A chance que meu bebê seja hétero ou homossexual é a mesma de qualquer pessoa. Não faz diferença o fato de que ele terá um irmão, um cunhado, uma madrinha e um monte de tios postiços gays. Por que homossexualidade não é contagiosa. Não se aprende. Não se impõe. Somente é. Saulo cresceu vendo beijos héteros e gays. Somos uma família muito carinhosa, de muitas demonstrações de afeto. Ele dormiu no sofá enrolado com os irmãos, passeou com o cunhado e assistiu a festa quando os dois foram morar juntos, da mesma forma que estava no casamento do outro irmão. E gosta de meninas. Está namorando uma boliviana para meu completo desespero...afinal ontem ele ainda era o meu bebê.
Não acredito que seja preciso esperar crescer para saber a verdade. A sexualidade deve ser encarada como natural e vivenciada de maneira gradual, dentro daquilo que a criança pode entender. Ninguém espera a criança fazer vinte e um anos para explicar de onde vem os bebês. Homossexualidade é uma manifestação tão saudável da sexualidade humana como a heterossexualidade. E como tal deve ser tratada. Justamente para sair do gueto onde essa negação a jogou.
A única diferença entre a atitude de Saulo e todo o sofrimento do irmão mais velho é que para Saulo um beijo gay merecia a mesma atenção que um beijo hétero: até dois anos atrás um “blargh que nojento”. Hoje ele gosta de beijos, mas não vê nenhuma problema se são entre dois meninos, duas meninas ou um menino e uma menina. Ele não está traumatizado, não se tornou gay, mas se torna a cada dia uma pessoa mais tolerante, menos cheia de ideias pré concebidas do mundo. Ele sofreu com a homofobia por tabela, de amiguinhos que diziam que o irmão era boiola, viado....aprendeu a responder, a se impor. E teve todo o apoio de nós quando se sentia chateado. Nunca negamos explicações, nunca deixamos de ir a escola exigir que ele fosse respeitado. É capaz de falar sobre o assunto com menos drama do que muitos adultos e seleciona seus amigos sem que eu precise falar algo que ele aprendeu sozinho: preconceituosos e radicais não são bons amigos.
Se seu filho é gay e você tem crianças em casa não faça disso um drama. Seja o mais verdadeiro possível e tenha certeza que preconceito não é inato como a sexualidade. Ele é aprendido. E você pode mudar esse jogo. Basta querer.

12 comentários:
Amiga, esse texto veio como uma luva no problema lá em casa. É impressionante como seus textos se encaixam tão direitinho na minha realidade!
Nunca vivi na vida real essa situação, mas nos programas que assisto, quando acontece surgem perguntas: menina namora meina? Menino namora menino?. Respondo normalmente: sim, a gente só namora quem a gente gosta. A pessoa se apaixonou e pronto.
Essa questão surgiu novamente na semana da diversidade no canal GNT, que assisti com as crianças à volta.
Não cenduro o que eles assistem, só evito mostrar filmes violentos, pois causam pesadelos.
bjs
Mais um texto esclarecedor e que bate muito com o que penso!
Parabéns!
bjs
Adorei o texto.
Essa coisa de influenciar não faz o menor sentido. Eu cresci no meio de héteros, até minha adolescencia nunca tive contato com gays, e jamais passou pela minha cabeça a ideia de querer beijar uma garota. Muito pelo contrário, rs.
Mas eu vou fazer a linha otimista, e dizer que um dia eles entenderão.
Beijos, Lilah, sua lindona!
É, querida... você imagina que meus amigos quase não podiam vir na minha casa pq 'poderiam influenciar' minha criança. Dormir, então?
Mas aconteceu do meu irmão ser gay. E aí? Como fica a sobrinha dele na história toda? Normal. Ela conhece o namorado dele. Não entende muito, acho. Mas também não pergunta. Se perguntar, explicaremos. O que não aceito, desde sempre, é demonstração de pre-conceito. Com pessoas de cor diferente, cadeirantes ou até mesmo deformadas. Pq a criança vê e fica repugnada. Então eu ensino que acontece.
Bom... desculpa pelo anônimo, mas vc entende a minha situação, né? Ele não quer se expor e não serei eu a fazê-lo! Beijo
É uma realidade que merece ser tratada com respeito e carinho.
Acima de tudo são pessoas que estão envolvidas.
Os preconceitos não ajudam em nada, só atrapalham.
Parabéns pela coragem e determinação de manter a familia unida.
beijinho
a lhaminha vai nascer num mundo muito mais tolerante. Ce vai ver. vamos mostrar isso pra ela e ela vai DUVIDAR que ja foi assim um dia.
amei o post, a palavra chave é: naturalidade.
porquê fazer diferente, tem que ser igual para todos.
beijos
liana
Mais um post mara,problema que as pessoas ainda acham que se vira gay por influencia dos demais ou da sociedade, mais naum existe se fosse assim inha irma seria lesbica,aqui tbem tem varios casos de irmãos gays, naum existe nada que possa inflencia nossa sexualidade, pq se fosse assim eu a sera hetero de tanto ver os clipes da ladygaga toda hora ea ta nua.....ronaldo
Lilah , estou aqui de enxerida.
Gays em minha vida são os muitos amigos que tenho.
E com quem minha filha convive desde bebê e nunca viu nada de errado nos tios que namoram tios. Acredito que explicar a partir do momento que eles tem idade para perguntar é o ideal. As cabecinhas deles não tem preconceito , é só a explicação não ter também.
"Quando ela tinha 6 anos ela me perguntou:
-Mãe eu sou hetero ou homossexual?
Respondi:
-Não sei , quando você decidir me conta."
Rotular , pra mim , é um peso desnecessario.
Mil beijos
Excelente texto! Adorei! Obrigada!
Encontrei este blog por acaso, e estou espantado com a precisão e perfeição com que todos os temas foram abordados! Obrigado e cumprimentos de Portugal:)
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