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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Solidão


 
Eu devia estar escrevendo o segundo post da série "Derrubando Alguns Mitos",mas, quem me lê a mais tempo, sabe que eu escrevo sobre aquilo que me toca. E nesse momento eu quero escrever sobre outra coisa. Ou talvez seja a mesma coisa, só que em outro ângulo.  Esse é um post escrito com um pouco de raiva e muito medo do que pode acontecer, amanhã ou depois, na vida de alguns meninos.

Não importa o nome desse menino, por que sua história é muito semelhante a de vários outros meninos. É tão comum, mas nem por isso menos revoltante ou assustador. E ele é um menino, mas podia ser uma menina, então leia esse post sabendo que uso o masculino apenas por uma questão de regra da língua. Eles tem dezesseis, dezessete anos e descobriram que gostam de meninos. Eles ainda deviam estar preocupados com as lições de casa, a prova, o professor chato e aquele jogo ou revista nova. Eles deviam reclamar da mesada, que não dá para chegar no fim do mês e receberem bronca por chegar tarde. Mas eles fazem planos muito mais ousados e assustadores.

Eles precisam mentir todos os dias. Fingir. Para quem eles mais amam. E se eles não aguentam mais e contam a verdade, descobrem que o amor incondicional, às vezes, é só uma ilusão.  Eles precisam traçar estratégias para sobreviver, por que eles sabem que a qualquer momento podem não ter mais um teto sobre suas cabeças. Eles pensam em trabalhar e sair de casa, numa idade em que a maioria só quer dormir até tarde! Eles choram até dormir, noite após noite. E escutam, de quem deveria cuidar deles, amá-los e protegê-los, que seria preferível que estivessem mortos ou presos, ou simplesmente não existissem. A agressão varia, o significado não: você não é mais digno do meu amor. É isso, e só isso, que essa atitude comunica. 

A solidão que esses meninos passam é imensurável. Eu não vou fingir tentar entender. Numa idade em que deviam estar descobrindo o mundo, se sentem obrigados a calar, esconder, mentir, fingir, disfarçar, sofrer calado e não reclamar. São olhados com raiva ou pena, revolta ou até nojo. Baseados em um enorme preconceito, fundamentado na maioria das vezes num radicalismo religioso, ou na total ignorância, pais afastam de si seus próprios filhos. Os empurram para um mundo que eles ainda não tem condições de enfrentar sozinhos. 

A taxa de suicídio entre jovens homossexuais é, em média, cinco vezes maior que entre jovens héteros. Vários estudos, em diversos países, relatam que tal situação nada tem a ver com a orientação sexual desses jovens, mas com o bullying, a pressão social e o abandono afetivo-familiar que esses jovens sofrem. Um estudo realizado em 2007, pela Universidade de Zurique aponta que 1 em cada 3 jovens homossexuais, na faixa etária de 15 a 21 anos, já pensou em suicídio. E 1 em cada 5, já tomou alguma atitude suicida. Em 2008, a União Européia fez o mesmo estudo (O suicídio de crianças e jovens na Europa: um grave problema de saúde pública), dessa vez envolvendo 44 países e pesquisando o suicídio de crianças e adolescentes. A conclusão é a mesma. O índice de suicídio entre crianças e jovens gays é de três a cinco vezes maior que entre héteros do mesmo grupo/faixa etária.

Ano passado, eu vi um menino de 19 anos terminar com a própria vida, por que ele não suportava mais as ofensas, agressões e desrespeito do próprio pai. Não é um caso isolado. Eu preferia que fosse, mas não é. É a realidade de milhares de meninos e meninas todos os dias. Você que é mãe ou pai, pense nisso. Pense em como você se sentiria aos 16 anos, sabendo que não pode mais contar com o amor de seus pais. Ouvindo dia após dia que decepção você é ou como eles tem vergonha de você. Tendo tudo que você sente classificado como "sem vergonhice" ou doença. Tendo que aprender sozinho e na marra sobre sexo, amor e segurança. Com medo vinte e quatro horas por dia. Sozinho. Condenado por algo que você não escolheu, não tem culpa e não pode mudar. Condenado, simplesmente, por ser você. Ainda dá tempo de mudar esse jogo e trazer seu filho de volta para você. Não duvide. Isso é tudo que ele quer. Talvez amanhã possa ser tarde demais.


7 comentários:

Telma Maciel disse...

Ai, Lilah... como é difícil vencer preconceitos, não? Sabe o que eu penso? Olha que horrível!
Um pai se preocupa com o que o vizinho pode falar sobre o seu filho e aí o põe na rua ou o ignora. Mas não pensa no que o filho desse vizinho pode fazer com o seu próprio.
É o que penso: pais às vezes colocam os filhos à mercê de homofóbicos violentos. É isso que mais me dói! E sabe o que? Se algo de grave acontece, o pai chora, mas ainda diz q o filho é culpado da 'escolha' que fez.
É mto doloroso pros pais, sim. Mas mto mais pro filho que é tratado como um nada... se unirmos as dores, acho que deve ser menor doloroso o processo.
Um grande beijo!

Anônimo disse...

Adorei. Não sei quantas vezes tive q retomar a leitura, pq realmente me emocionei, Lilah. De repente me vi num espelho. Mergulhei em lembranças. Incrível!

Por aí tem tantos pais perdendo a oportunidade de conhecer seus filhos. Os verdadeiros. Tantos que se deixam levar por preconceitos, e acabam indo numa direção contrária da deles. E quando menos esperam, deixaram para trás um amor verdadeiro.

E o filho, sozinho, não pode ficar parado não, é? Então, antes mesmo de aprender a andar, sai correndo. E se um dia, resolverem voltar, podem não encontra-lo. Ou simplesmente o ver caído, machucado, por não ter aprendido correr.

Beijos!

TUKA. disse...

Ja está ficando repetitivo eu dizer que o texto é ótimo.
Mas não tem outra palavra que se encaixe nos seus textos.
Os pais precisam parender a lidar com tudo isso, os filhos (as) precisam ser aceitos.
E é muito importante ter alguem que faz esses alertas.
Parabéns mais uma vez pelo post.
TUKA.

kyllia disse...

Muito bem escrito, lindo.
É triste pensar como certos pais se comportam em relação a opção sexual de seus filhos, se eles pensassem um pouco, veriam que é muito melhor ter um filho gay, saudavél e feliz do que um filho drogado, doente e infeliz.
Parabéns pela bela mensagem
Kyllia

Anônimo disse...

Ah lilah, puxa, ...chorei de novo...
É uma realidade tão dura, ainda esses dias havia um notícia no jornal nacional que falava de um rapaz tão novinho que teria se suicidado porque foi exposto na internet um vídeo aonde ele beijava um outro rapaz, tão menino ainda meu Deus...

Beijos linda parabéns mais uma vez, fiz igual o Guh Alves voltei ao texto várias vezes...

Isabel....

Ahn...Sim. disse...

Muito bonito o texto! Emocionante e real.
Parabens.

Sidney Perantoni disse...

belo post!