Não é a toa que a primeira atitude de um conquistador é impor a língua ao povo conquistado. A linguagem é mais que a mera combinação de fonemas, palavras trazem uma carga emocional, tem história, refletem sentimentos de apoio, negação, deboche. Em cada época podem ter significados diferentes e dependendo do grupo social que as use ganham contornos ainda mais específicos. Palavras não são usadas de maneira fortuita, na maioria das vezes elas querem dizer muito mais que a combinação de letras.
Eu vou correr o risco de ser vista como politicamente correta demais nesse post, justamente por que acredito na força das palavras e seu uso errado me irrita muito. Vamos a elas?
Homossexualismo X Homossexualidade – Num primeiro olhar parece tudo a mesma coisa não é? Mas me diga uma coisa: você já ouviu a expressão heterossexualismo? Provavelmente não. Por que o sufixo Ismo significa doença. Por muitos anos o termo homossexualismo fez parte do Código Internacional de Doenças (CID 10), na seção de parafilias, que são distúrbios da sexualidade e incluem pedofilia e bestialidade. O uso do termo é errado justamente por que tal conceito foi considerado ultrapassado e abolido da medicina. A homossexualidade é uma expressão natural e saudável da sexualidade humana. Tão natural e saudável quanto a heterossexualidade e bissexualidade.
Opção X Orientação – Aqui, um pouco de atenção já explica o por que do termo mais correto. Opção significa que você tem mais de uma alternativa e pode ESCOLHER aquilo que quer. Não existe opção sexual. Seria o mesmo que dizer que alguém pode acordar de manhã e decidir ser gay. “Não tenho nada para fazer essa semana então serei gay para ver como é.” Absurdo, não? O termo orientação vem de “direção ou sentido do afeto”. No caso do heterossexual sua atração e afeto é dirigido, orientado em relação ao sexo oposto. No caso do homossexual tal orientação se dá em direção ao mesmo sexo. Opção me faz sempre pensar na imagem desse post, um botão de liga e desliga com as opções de gay ou não gay. E isso, além de absurdo, é de uma maldade extrema, por que joga sobre as costas do homossexual a responsabilidade de “sua escolha” e diz, em outra mão, que se ele “escolheu” isso deve estar preparado para “assumir” as consequências. É um discurso bastante usado por moralistas e religiosos que pregam contra a criminalização da homofobia. Dizem eles que, diferente de um negro ou deficiente, que não pode escolher sua condição e por isso precisa ser protegido pelo Estado contra a discriminação, os homossexuais fazem uma decisão e portanto não são se enquadram na necessidade de proteção do Estado.
Assumir X Estar aberto – Essa é uma opinião bem pessoal Eu detesto o termo assumir. Por que me remete a culpa, vergonha, crime. Assumir a culpa, assumir o que fez, assumir a decisão...Nada disso se aplica a homossexualidade. Ninguém assume que é hétero, não é? Em inglês o termo mais usado é Out (fora) ou Comming Out para o processo de saída do armário. Eu gosto do termo por que me dá uma sensação de movimento, de decisão de estar aberto sobre sua sexualidade. Estar ou não aberto sobre sua orientação sexual é uma decisão pessoal e não deve estar envolta em toda essa carga de culpa como se fosse necessário fazer uma declaração formal em três vias, com firma reconhecida. A saída do armário, ou outing em inglês, devia ser uma decisão pessoal, libertador e não uma imposição do grupo como uma confissão.
Pode até parecer que é tudo a mesma coisa e estamos querendo ser mais realistas que o rei, mas não é. A língua é um objeto de dominação e um bem cultural. As palavras, repetidas a exaustão ganham mais que sons, ganham uma história, uma conotação social. Carregam o peso de condenação ou a leveza da aceitação. Palavras mal usadas são armas. Não as use sem pensar no que você quer comunicar.

18 comentários:
Poxa amiga, vc agora me deu uma aula. Nunca pensei no sentido em si das palavras, interpretando seus significados. Que bom que tenho vc para me ensinar! hehehehe
Bjs
Nossa, eu nunca tinha atentado para a importância e a carga que as palavras trazem. Muito bom, amiga!
O óbvio só é óbvio para o olho preparado. Obrigada por preparar nossos olhares. Vou usar um parágrafo e linkar para cá. Extremamente útil.bjs
uma lição realmente!
e confesso q não sabia msm sobre o 'ismo'...
tô boba!
magnífico post!
sensacional, sensível, educativo, lindo e como disse a Fer Reali - UTIL!!!
bjão
da Li
OI LILAH, EU ADOREI CONHECER SEU BLOG, MEU IRMÃO CAÇULA É HOMOXESUAL, E CONCORDO COM VOCÊ QUANDO DIZ QUE NÃO É UMA OPÇÃO, EU PERCEBI DESDE MUITO CEDO QUE MEU IRMÃO ERA DIFERENTE NA FORMA DE AGIR, BRINCAR ETC. COM O TEMPO ISSO FOI SE CONFIRMANDO E A 5 ANOS ELE TEVE CORAGEM DE EXPOR O QUE SENTIA, MAS NÓS JÁ SABIAMOS, GRAÇAS A DEUS MINHA FAMÍLIA É BEM ESCLARIDA E NÃO TEVE PROBLEMA NENHUM, ELE TEM UM NAMORADO QUE NÃO TEM A MESMA SORTE, POIS O MENINO ESCONDE SUA SEXUALIDADE PORQUE OS PAIS SÃO EVANGÉLICOS E NAÕ ACEITAM, ELE JÁ TEM UM IRMÃO GAY QUE FOI EXPULSO DE CASA, EU ACHO ISSO UM ABSURDO, POIS SOFRERIA MUITO SE MALTRATASSEM MEU IRMÃO, IMAGINA QUE TIPO DE MÃE E PAI QUE ABANDONAM UM FILHO QUANDO ELE MAIS PRECISA( NA FASE DE ADOLESCENCIA) . ÓTIMO FIM DE TARDE. BEIJOCAS
Caramba, Lilah, sempre usei as palavras erradas achando que estava usando as certas... mas pelo menos acho que nunca magoei ninguém... meu abraço sincero estava sempre por perto, isso é o que importa, né?
Você sempre me surpreendendo!
beijo
Adorei saber como colocar as palavras neste aspecto...
Gostei imensamente do seu blog e da proposta dele...
Beijos,
Cê
Verdade amiga, se não dominamos o nosso idioma, somos reféns dos pensamentos e vontades alheias. Vocabuário pobre é igual a pensamento pobre, pensamento capenga, falta de percepção seletiva. E não é em vão que a primeira coisa a fazer para dominar um povo é impedi-lo de usar sua língua-mãe. No tempo da escravidão negra, os escravos eram transportados em navios e o primeiro cuidado que os dominadores tomavam era não colocar lado a lado dois que falassem o mesmo idioma. Assim também, ao falar no telefone, você identifica facilmente o nivel social da pessoa que está no outro lado da linha. E por aí vai. Tenho visto muitos textos que utilizam uma palavra pela outra, num visível atestado de desconhecimento do idioma. E, assim como você, também penso que as palavras não podem ser usadas indiscriminadamente, pois elas são muito poderosas e tem significados próprios que mudam através do tempo, com o dinamismo da vida. Você tem toda a razão, palavras não são apenas uma junção de letras, e agora digo eu: e ler não é apenas decodificar sinais gráficos. Muito bom esse post. Parabéns. Bjssssss
Olá, prazer! Vi sobre você lá no blog da Fernanda Reali e vim até aqui te conhecer... Parabéns pela ideia do seu blog, parabéns por essa aula em formato de post e sobretudo parabéns pela proposta de seu Cantinho, adorei e achei muito interessante tudo por aqui.
Já te sigo e voltarei mais vezes.
Beijo, beijo!
She
Lilah,
Muito bom o seu post.
Seu receio de ser politicamente correta demais, não se concretisou.
Você foi precisa nas suas colocações.
Faço um mea culpa da utilização errada desta terminologia.
E a gente o faz sem malicia ou preconceito, apenas repete o usual.
Aprendi aqui com você e tomarei cuidado para não seguir com a sua utilização erronea, ajudando a mudar esta postura.
Obrigado pelo esclarecimento.
abço
Que lição hein...
Cheguei até aqui através do blog da Fernanda, e pode ter certeza de que aprendi mais um pouco em como lidar com as palavras.
Fica aqui o convite para conhecer o meu blog, será um prazer te ver Pelos Caminhos da Vida.
beijooo.
Oi Lilah, muito bom o seu texto, uma aula necessária a todos com certeza, acredito que aos poucos, com pequenas atitudes e pequenos gestos vamos conseguir livrar o mundo deste mal tão horrivel que se chama preconceito. Muitas vezes exposto até mesmo na maneira de falar(mesmo que por ignorância), agora ao menos sabemos como usar a palavra certa e aos poucos vamos mostrando ao mundo que ninguém é diferente, cada um é o que é, e merece o mesmo respeito que nós acreditamos merecer.
Um grande abraço.
Oi Lilah, mais uma que chegou até aqui pelas mãos da Fernanda Reali.
E que bom que vim!!!
Aprendi muito com seu texto. Como a gente se pega fazendo coisas que acha estarem corretas e não estão.
Sua explicação sobre a diferença entre os termos foi fantástica. Simples e totalmente esclarecedora.
Essa frase, em particular, quero gravar na memória e no coração:
"As palavras, repetidas a exaustão ganham mais que sons, ganham uma história, uma conotação social. Carregam o peso de condenação ou a leveza da aceitação."
Um blog para ser muito divulgado!!
Forte abraço
Oi, sou sua nova seguidora, cheguei através da Fernanda Reali, já adorei. Sou uma pessoa que teve educação militar, convivi sempre com o machismo como sendo o correto, e sou uma "revoltada nata" que para Horror da família de papai tinha como amigos todas as pessoas com opções diferentes do que era "correto para a sociedade de uma cidade de 20.000 habitantes. A cada estudo que aparece e nos dá uma idade para a dúvida sobre a sexualidade costumo rir e dizer que as pessoas se preocupam muito com quem a gente se deita, acredito que sexo é pessoal e intransferivel. Nunca vou deixar de amar ninguém do meu círculo de convivência por relacionar-se com alguém do mesmo sexo. E travo a maior luta com os heteros que me rodeiam para que moderem sua linguagem. Pois inadivertidamente podem magoar alguém que esteja presente.
Aprendi muito aqui e vou continuar visitando.
Grande abraço
Lilah
Excelente iniciativa de criar este blog.
Também cheguei aqui através da Fernanda.
Sua colocação nos traz um novo olhar para situações que nos cercam a todo instante e nem percebemos.
Parabéns querida.
Sucesso com teu blog.
Lilah,
Intenso e verdadeiro seu post, me vi cheia de palavras usadas de forma errada, interessante que tomo todo o cuidado para me expressar em determinadas situações e nesta nunca tinha aprendido nada a respeito. trabalho com os "diferentes" aqueles que são músicos, atores, loucos de carteirinha, engajados, enfim, aqueles que não aceitam a condição de ser iguais a massa de manobra, nunca discutimos nada a respeito da sexualidade, assumo a postura de ser algo pessoal, livre e aberto, cada um faz o que quer, e não deve se importar com a opinião alheia, isso para a maioria é confortante e acolhedor, se são heteros ou não, a vida é deles e é só a eles que eles irão prestar contas.
Beijos
Muito bom post!
Palavras exatas!
Verdadeiro seu post e me ensinou muita coisa a respeito do uso inadequado das palavras.
A razão da existência de seu Blog mostra o quanto você é MÃE com todas as letras maiúsculas.Amamos os nossos queridos com tudo que eles tem e são.
Acho todo preconceito burro e machuca demais.
Sofro muitas vezes preconceito por ser diferente( sou portadora de Parkinson)e muita gente confunde com demência,e imediatamente passa a me rejeitar.Sinto na carne o preconceito e sabe,me comoveu o que li aqui pois seu filho já deve ter sido vítima de preconceito por ser diferente também.Ter uma família que nos ama e apóia é reconfortante.
Abraços
Teca
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