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sábado, 23 de outubro de 2010

E o Pai? 2ºParte


Aqueles quinze dias são um grande borrão na minha cabeça. Muitas manhãs de cafés silenciosos, brigas que explodiam de repente, os olhos sempre assustados do Saulo, sem saber o que estava acontecendo e a distância cada vez maior do Lucas. Que inventava todas as desculpas para não voltar para casa.

Não houve nenhuma conversa quando voltamos da praça. Não houve brigas ou discussões. De todas as escolhas que o Beto podia ter feito...brigar, discutir ou acolher...ele preferiu a que parece mais simples e menos traumática. O silêncio. Ignorar. Mas só PARECE menos traumática. Era como andar numa casa e ter um elefante branco em cada cômodo. Um elefante que todos fingiam não ver. A única hora que Lucas não podia escapar era o café da manhã, praticamente uma instituição numa casa de filhos de imigrantes portugueses e espanhóis. E eram minutos angustiantes de silêncio, quebrados apenas pelo som dos talheres.

Nós fomos até a escola e, sem acordo,optamos por uma transferência. E Beto, que sempre levou o filho ao colégio quando estava em casa, tentou manter a mesma rotina. Só que os dois não conseguiam se olhar. A falta de jeito entre eles era algo dolorosamente óbvio. De menino carinhoso e tranquilo, Lucas se tornava fechado, quieto e assustado. Eu tentei iniciar algumas conversas, mas de um lado Lucas repetia que estava tudo bem, do outro Beto se recusava a me ouvir. Pela primeira vez em trinta e cinco anos de amizade eu não conseguia conversar com ele. E meu casamento, que tinha resistido a muita coisa, começava a fazer água rapidamente.

Lipe, por outro lado, ficava incontrolável a cada dia. De piadas e gracinhas para ofensas e brigas não demorou. O que, com a fofoca espalhada entre os amigos surfistas que frequentavam minha casa, piorou ainda mais. Vítima dos deboches dos amigos, ele descontava em Lucas, a quem culpava por tudo. E exigia que nós resolvêssemos o problema, como se o irmão fosse um brinquedo quebrado que mandássemos para o técnico consertar. Até arrastar Lucas para uma garota de programa para “ensinar a ser homem” ele fez.

Era costume que todos nós levássemos Beto no dia do embarque. No sábado, véspera do embarque, já bem tarde, Lucas bateu na porta do quarto. É engraçado como a gente guarda alguns detalhes...Lembro que ele não entrou como sempre, mas da porta mesmo e de cabeça baixa deu uma desculpa esfarrapada de que teria uma prova na segunda e precisava estudar na casa de uma amiga. E lembro da insistência em frisar que se tratava de uma menina. Por isso não iria conosco a Macaé. E antes de qualquer resposta deu boa noite e saiu.

Eu e Beto não trocamos nenhuma palavra naquela noite. No dia seguinte, no café, Lucas não estava. E como num passe de mágica, minha casa parecia “livre” do elefante branco. Barulho, brincadeiras e bolinhas de miolo de pão voltaram a rolar na mesa enquanto Saulo virava alvo de todas as brincadeiras normais de um dia comum. No carro, a mesma coisa. De repente todo mundo tinha descoberto o bom humor! O problema não estava lá. Só que o “problema” era meu filho. Filho dele. Irmão dos três. E que estava cada vez mais escapando das nossas vidas e entrando num mundo que eu não podia mais alcançar. E que ele não estava pronto para encarar sozinho. Acho que foi ali naquela viagem que eu me dei conta que eu tinha duas escolhas na vida: eu podia assistir meu filho sair da minha vida e construir um lugar onde eu nunca mais poderia entrar e ter só metade dele ou eu podia tentar entender que lugar era esse onde ele vivia agora.

E eu disse isso ao Beto antes dele embarcar para a plataforma. E disse a ele que pensasse. Talvez a frase mais difícil que eu disse para ele toda a vida. Por que se tinha uma coisa clara na minha cabeça naquele heliponto é que eu não ia perder meu filho. Mesmo que isso pudesse custar meu casamento. Nas duas semanas seguintes nós conversamos exaustivamente pela internet e pelo telefone. E discutimos provavelmente o que não discutimos uma vida inteira. Fomos do “a culpa é sua que mimou demais e não deixou ser homem” até o “ a culpa é minha que não estava presente o bastante”. E eu soube que chegaríamos em algum lugar quando ele foi capaz de dizer que não sabia o que fazer com um filho gay e que se sentia perdido. Por que então podíamos começar a construir algo. Lucas não estava em casa quando ele voltou. Mais uma desculpa das inúmeras que ele tinha dado para estar fora. E eu perguntei se ele estaria satisfeito em ver isso se repetir pelo resto da vida. Por que ele ia não ia deixar de ser gay. E se nós não encontrássemos um lugar onde ele pudesse ser ele mesmo e estar conosco, então ele iria nos deixar. Por que era a única alternativa que nós estávamos dando.

Dois dias depois, quando Lucas voltou para casa e Lipe e ele estavam em mais uma briga, foi Beto que interrompeu. Com um grito tão fora da característica da personalidade dele, que os dois imediatamente se surpreenderam. “Seu irmão é gay. Nós vamos ter que aprender a respeitar isso. Você não precisa entender. Eu não entendo. Não sei se vou entender um dia. Mas você não pode continuar a transformar essa casa num inferno.” Não lembro as palavras exatas, mas foi algo parecido com isso. Lipe saiu batendo a porta, revoltado com o fato que estávamos apoiando a viadice do irmão. Beto e Lucas começaram ali e na longa conversa que se seguiu, uma nova história. Beto não tentou convencer Lucas de que tudo estava bem ou de que ele estava feliz e traquilo com a situação. Seria uma tremenda mentira, mas o mais importante foi dito naquela conversa. Posso não entender você, posso não saber por que ou como você sente. Mas você ainda é meu filho e eu ainda amo você. Não sei se Beto até hoje entendeu. Não sei nem se isso de alguma forma é importante. Sei que eles encontraram um caminho e paz. E que Beto apresenta nosso genro com a mesma tranquilidade que apresenta nossa nora.

Para Lipe o caminho foi mais cheio de percalços. Além de não entender, ele vivia a pressão do grupo, dos amigos que insinuavam que ele podia ser viado também. E para um garoto de 21 anos isso era muito complicado para lidar e a forma de reagir era se mostrar mais “macho”. O que incluía comportamentos bem perigosos. Por alguns meses eu temi o caminho que ele estava tomando, as companhias, a linguagem cada vez mais agressiva e preconceituosa. É duro ver um filho fazendo tudo aquilo que você condenou a vida inteira. E ter a sensação de que errou em algum lugar por que de onde vinham aqueles conceitos? Será que de alguma forma eu ensinei isso? Ou não vi que estavam ensinando? Foi só quando Lucas foi agredido por um grupo de pitboys ao chegar da escola que ele percebeu onde aquilo ia terminar.

Por sorte, ele chegou um pouco depois da agressão começar. E Lucas escapou com um braço quebrado, uma costela contundida e alguns hematomas. E Lipe precisou encarar que metade daquele grupinho eram pessoas que ele chamava de amigos. E que por mais alguns minutos ele talvez não conseguisse evitar uma tragédia. E então, a sexualidade do irmão pareceu tão menor. Ou voltou a ocupar o espaço de direito, como uma só característica no meio de tantas outras. Não foi da noite para o dia. Eles não saíram daquela emergência os irmãos que eram em criança. Ainda levaria meses de muita mágoa para ser apagada, de muita conversa, de muita discussão de “por que você não pode ficar com uma menina?”. Levaria mais de uma ano para estarem a vontade juntos. Mais ainda para ver a sexualidade do Lucas ganhar contornos práticos, com um namorado e respeitar isso. Outros tantos passos para que ele visse no cunhado um amigo.

Mês passado minha neta nasceu. Lipe tem fobia de sangue e foi desencorajado pelo obstetra a estar na cesárea, já que homens desmaiando não são muito bem vindos num centro cirúrgico. Laurinha chegou ao mundo no colo de Lucas. Por escolha do Lipe e da Lili,minha nora. E é também seu padrinho. E depois de quase seis anos, eu sei que Lucas tem certeza que pode ser quem é. Comigo. Com o pai. Com os irmãos. O mundo ainda não é o lugar seguro que eu queria para ele. Mas a gente chega lá.

14 comentários:

Fernanda Reali disse...

Como sempre, emocionante e educativo. E são esses alguns dos capítulos do teu futuro livro, pode acreditar.

bjs

Nanne disse...

Acho que nunca vi algo tão lindo, tão difícil e complicado assim.... Eu tenho grandes amigos homossexuais, e nunca, me passou pela cabeça em ofendê-los ou algo assim, mas eu sei que cada um teve o seu calvário para a aceitação em seu lar! Um sofreu com o pai machista e apanhou diversas vezes, se viu humilhado pelo pai tantas outras, mas com a graça de Deus a mãe e os irmãos apoiaram a decisão, e hoje ele está bem... é amigo do seu pai e o namorado dele tbm! Sempre imaginei como seria para um pai absorver essa verdade, não sei como seria na minha casa, até pelos princípios e religião da minha família, então eu teria muito medo pelo meu irmão, caso ele fosse homossexual ou por mim mesma, caso fosse tbm! Essa é uma experiência única, e graças a Deus, Lilah as coisas deram certo, o preconceito diminuiu, mas o mundo é tão injusto.. e dói quando aquele que você ama sofre devido aos percalços da vida! Uma experiência única!!! Beijos

Patricia Daltro disse...

Lilah, posso ficar em silêncio nessa conclusão? Tô tão emocionada que nem sei o que falar... Chorei demais lendo esse post...

Telma Maciel disse...

Tô com a Paty... tô chorando mto até agora. Acho que é difícil o mundo mudar de uma hora pra outra, mas precisamos msm fazer o possível pra evitar situações como esse ataque dos pit boys. Isso me assusta!!!
Sempre que um amigo meu me diz que vai contar pros pais que é gay, lésbica ou que já está com namorado(a), eu fico tensa. Pq na maior parte das vezes não é fácil. Até hoje eu só vi UM caso em que a mãe disse "ah, eu já sabia... te aceito". E não é o caso que vc já conhece rs.
Me emociono mto... mas fico feliz em saber que hoje está tudo bem. Pode levar o tempo que for, mas a decisão é essa: ou vc tira a pessoa da sua vida, ou está com ela pra sempre! A segunda é a melhor opção.
Um grande beijo!

Accácia disse...

Me junto as duas meninas daqui de cima...estou teclando e chorando.
Houve uma hora que parei de ler e fui chorar com meu marido.Dividir com ele sua história de amor!
Perdôe as palavras faltam...
Beijo,
Accácia

Lily Luz disse...

"..."
O que dizer?
Vc é minha heroína!

Le1dro disse...

Nossa, eu fiquei doido para sair essa segunda parte e você me vem com essa maravilha de texto. Muito emocionante eita.

Beijão =)

Eu estou bem animado a encarar essa etapa em minha vida, contar aos meus pais. Vamos ver no que resulta.

MaxReinert disse...

Junto-me ao coro dos que se emocionaram muitíssimo com a narrativa.... e me calo... agradecido!

Unknown disse...

Lilah,

Lindo... a primeira parte e o desfecho!
Um relato real, cheio de emoção e que nos coloca para refletir... e se fossem nós nessa mesma situação, o que faríamos?
Acho que você tem muito a ensinar para pais e mães, vou entrar na campanha para você escrever um livro!

Beijos ;)

material girl disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
material girl disse...

Que bom, Lilah, que sua família conseguiu chegar a um termo de entendimento e aceitação, onde há amor, ele fala mais alto, sim!! Sabemos que o destino de muitos gays é adverso, a expulsão de casa, e o abandono pela família.

Só posso continuar desejando a todos vocês muita paz e saúde, são iluminados, torcendo muito prá chegar uma mais uma menininha (além da neta), felicidades e graças para sua família!! Beijos!!

Lola disse...

Com certeza o mundo chegará lá! É que eu espero e o que eu ensino para os meus filhos! De certa forma, essa coisa implantada na cabeça das pessoas, de que a orientação sexual de alguém é comportamental ,ou seja, é só opção, escolha, faz com que a maioria não entenda o porque da pessoa não ser aquilo que é mais "aceitável", menos sofrido! No momento em que entendermos que a sexualidade também é inato como ser negro ou saber desenhar muito bem, ou ser canhoto, ou ter raciocínio rápido, será mais fácil!
Admiro a coragem de todos, inclusive do Lipe porque ele também deve ter sofrido muito!
Bjs

Anônimo disse...

Á num tinha como não comentar, é coo eu disse o Lucas não é seu filho a toa, ele tinha que ter essa mãe, so pode que é um cara unico, logico não diminui os momentos dificeis que vcs todos passarão, mais que hoje podem ensinar a muitas familias como lhe dar com algo tão dificil quanto aceitação........ronaldo

Anônimo disse...

MAIS UMA VEZ FIQUEI TÃO EMOCIONADO QUE TIVE QUE LIGAR PRA MINHA MÃE E DIZER QUE A AMO MUITO.SÓ PESSOAS MUIO SINGULARES SÃO DOTADAS DE TANTA FIBRA E CARATER. PARABÉNS MAIS UMA VEZ. VOCÊ E MINHA MÃE SÃO ASSIM. GDE ABRAÇO.
ASS. ADRIANO.