Desde da primeira coluna me cobram esse post, sobre a reação do meu marido quando Lucas contou que era gay. E ele demorou por dois motivos. O primeiro que é assunto delicado e eu não queria escrever de qualquer jeito sem ser fiel ao que realmente aconteceu. E o segundo por que meu marido é tímido e odeia internet. A proposta de criar o blog era minha e com o aval do Lucas, eu estava disposta a falar da nossa relação e de como eu passei a ver o mundo depois que ele me contou que era gay. Mas eu nunca quis expor o Beto, que é um fóbico de tudo que tenha a ver com internet. Só que ficou impossível não falar desse assunto. E escrevendo, eu descobri que era impossível contar essa história sem falar do Lipe e então precisei do aval dele também. Por ter ficado muito grande, vai em duas partes.
E eu vou começar dizendo que às vezes acho que dei uma visão errada nesse blog. De que tudo foi um mar de rosas e eu saí alegre e saltitante depois de ouvir do Lucas que ele era gay. Não sai. Nós dois choramos um oceano naquele dia. Eu por que me sentia culpada, ele por que tinha medo do que ia acontecer dali para frente. Eu lembro perfeitamente daquele dia, em detalhes nítidos como se tivesse acontecido ontem. Era uma terça feira, fazia muito calor apesar de ser maio. Lembro do sol por que ele estava em desacordo total com um adolescente encharcado que ficou parado no meio da minha sala. Lucas havia sido vítima de mais um ataque de bullying na escola, dessa vez em forma de água suja. Enquanto ele tomava banho eu sabia que a conversa que vinhamos adiando a semanas não ia passar daquela tarde.
Ele me contou como quem conta um segredo vergonhoso. E talvez venha daí minha aversão ao termo assumir, por que aquela culpa é algo que eu passei a detestar. De tudo que falamos naquela tarde o maior dos medos dele era a reação do pai. Meu marido é um homem tranquilo, que fala baixo e que eu não consigo lembrar de uma vez que tenha levantado a mão para os filhos. Sempre foi um pai extremamente presente, do tipo que leva a escola e assiste as peças, mesmo passando 15 dias por mês embarcado. Ele fazia malabarismo que até Deus duvida para não perder natais e aniversários. Então era de se esperar que Lucas não se sentisse tão apavorado, mas ele estava. Sendo o único filho biológico e sendo meu marido o único filho homem de uma família portuguesa bem católica e tradicional, existia uma pressão de ser o “reprodutor”, aquele que continuaria o sobrenome. E ele ia destruir todas essas ilusões. Pelo menos nós achávamos isso naquele momento.
E eu estava também. Minha relação com a família do Beto pode ser descrita , no máximo, como civilizada. E minhas cunhadas, religiosas demais, seriam um problema. Naquela terça-feira Lucas me implorou que não contasse ao pai e nem aos irmãos. E foi difícil negar isso, mas eu tenho uma vida ao lado do Beto e isso era algo muito importante para eu simplesmente omitir. Inclusive por que envolvia situações na escola que iam precisar de medidas sérias. Então eu prometi apenas que eu mesmo contaria e que tudo ia ficar bem. Uma promessa absolutamente vazia. Eu e ele sabíamos disso. Eu tinha um plano. Que ruiu no dia seguinte quando Lipe descobriu a verdade por um vizinho fofoqueiro que estudava na mesma escola que o Lucas. E o inferno se libertou na minha casa.
Nós tivemos uma discussão muito grosseira, que quase chegou as vias de fato entre os dois e terminou com ameaças do Lipe de ligar para o pai na plataforma se nós não “dessemos um jeito nisso”. O “nisso” em questão sendo a sexualidade do Lucas. E de repente além de um filho gay e um marido que não sabia de nada, eu tinha um filho homofóbico querendo resolver as coisas da pior maneira possível. E meu marido chegaria em três dias. Dizer que eu estava pressionada é um eufemismo total.
Foram três dias de longos silêncios na mesa do café. De piadas sem graça e explosões a qualquer momento. De muitas discussões entre eu e Lipe, até que eu o confrontasse de maneira definitiva e bastante dolorosa, com um argumento que eu sempre odiei que meus pais usassem: você mora na minha casa e eu não vou admitir que se comporte assim enquanto eu sustentar você. O que não resolveu nada e só jogou o problema para debaixo do tapete. Os dois não estavam se falando, a não ser que você considere insultos de um e portas batendo do outro. No meio, Vic que não entendia por que tanta confusão, nas palavras dele “só por que o Lucas prefere pintos” (taí um garoto que sempre resumiu bem as coisas) e Saulo, tão criança ainda que não sabia o que significava os “viado” que o Lipe soltava e me deixavam tão irada.
E sábado amanheceu, mesmo eu querendo muito que não viesse, e me encontrou acordada, pensando no que eu iria falar para o Beto quando ele entrasse numa casa que estava em pé de guerra. Mandei Lucas e Saulo para a casa de uma amiga, Vic que sempre foi um garoto esperto achou alguma coisa para fazer. E proibi Lipe de dizer uma palavra até que eu conversasse com Beto. O que ele concordou com muitas reclamações. E saí de carro para buscar meu marido em Macaé, uma viagem de quase 4h do Rio de Janeiro. Sozinha no carro, eu fui elaborando mil discursos, mas cada um deles parecia vazio. A ideia era que ficássemos em Macaé aquela noite e eu tivesse tempo para contar a novidade, sem ninguém em volta para interromper. Só que planos nem sempre funcionam, principalmente quando você precisa deles. E Beto estava gripado, febril e querendo ir para casa naquele exato momento.
Nós voltamos para casa e eu passei a viagem inteira pensando no que dizer, como contar. E sabendo que não dizer seria o pior dos cenários, por que ele perceberia em trinta segundos que algo estava errado em casa. Mas não consegui falar. E ele percebeu que algo estava errado quando Lucas chegou e Lipe saiu da sala sem nem um boa noite. Ou quando a casa barulhenta e festiva de sempre só tinha portas batendo e sussurros irados. E me conhece o bastante para, mesmo gripado e febril não discutir quando eu disse que precisávamos sair e conversar.
Nos fomos até uma praça perto de casa, quase na praia. E eu contei. Não me pergunte com que palavras, eu não sei. Ele não disse nada no princípio. Acho que o choque foi maior. Eu de alguma forma esperava por isso a anos. Beto foi pego de surpresa em seus próprios preconceitos e esteriótipos. Como assim o filho que joga futebol e faz caratê é viado? Então vieram os medos. As perguntas se ele transou com alguém. E a AIDS? E o que a gente faz agora? E a família? E os amigos? E os outros meninos? Onde a gente errou? Mimamos demais? Como se eu tivesse alguma resposta para tudo aquilo!
Daquela conversa doída só me lembro claramente do fim. De pedir a ele que não desse corda aos ataques do Lipe. De que ele tivesse cuidado com o que diria ao Lucas. E do silêncio absoluto enquanto voltávamos para uma casa com dois irmãos em lados opostos de um ring.

10 comentários:
Confesso minha total insegurança ao escrever isso. E ele causou reações diferentes as pessoas que mostrei antes de publicar. Comecei a escrever sem saber onde chegaria e apesar de publicado me pergunto ainda se não exagerei na "pessoalidade" dele.
Não sei se o tom do relato é o correto para um blog, mas é mais verdadeiro e fiel ao que aconteceu que eu consegui escrever. Comentários são bem vindos. A segunda parte ainda não está escrita, mas eu tentarei.
Querida Lilah, sempre te admirei como uma mulher inteligente e culta, e agora admiro por você ser uma mulher de fibra, corajosa e até mesmo ousada, uma mulher de atitude, inclusive ao dizer que sentiu insegurança escrevendo esse relato, gostaria de te parabenizar por isso e mais ainda por fazê-lo estando na sensibilidade de uma gravidez. Gostaria de dizer às demais pessoas que resolvam comentar aqui, que se não conhecem a Lilah, à respeitem como deveriam fazer com todas as pessoas em geral, e mais ainda porque essa mulher apesar de forte e experiente na vida, é um ser humano como todos nós e pensem se vocês teriam a mesma coragem de tratar e expor um assunto tão delicado assim na internet, eu não teria essa mesma coragem, justamente por causa dos preconceitos, embora eu não esteja vivendo a mesma situação, quando se está sentindo na pele as coisas são diferentes, mas no final das contas, isso poderia acontecer em qualquer família, não é um bicho-de-sete-cabeças, mas mesmo assim é difícil, as dificuldades externas são as mais incômodas, as pessoas costumam ser cruéis quando falam da vida dos outros. Força, Lilah, meus sinceros parabéns!
parabéns pela sua descrição,muito boa... e enfim o importante é passar a mensagem e foi bem explicado tudo o que aconteceu estou ansioso para saber o desenrolar desta historia... também tenho a minha que preciso, compartilhar mas isso é assunto para um ou dois post no meu blog ... abraços e você é uma mulher e tanto ao resolver seus problemas com coragem e inteligência continue assim :D
Lilah.
Lipe, vc é o Beto saíram INFINITAMENTE maiores desse episódio do que entraram.
A gente tem um monte de conceitos, idéias e formulas sobre todas as coisas.
mas caráter a gente só descobre que tem quando nos colocamos a prova.
Extrair o melhor de si numa situação limite é o que diferencia herois de soldados numa batalha.
ai. ficou cafona. mas eu to meio fan do lipe depois dessa.
Conta o resto que o povo vai entender pq o lipe merece medalha.
Depois de ler esse relato, não posso deixar de perguntar: Até quando você vai relutar em escrever um livro?! Lilah, eu sei que você está abrindo a alma ao escrever esse post e sua futura continuação, e que por envolver outras pessoas que você ama, tudo fica mais delicado ainda. Mas, amiga, ao se expor, você, mesmo sem querer, cria identidades com pessoas que passaram, passam ou vão passar pelas mesmas dores e aceitações que sua família passou.
E ao criar essas identificações, pode auxiliar famílias que estejam neste momento, vivenciando esta situação dificil, que um dia sua família teve que enfrentar e do qual saiu mais forte e mais unida.
Lindo post, querida, foi como enxergar teu coração pulsando em cada frase.
Chorei lendo este texto, por dois motivos: primeiro pq lembrei do dia em q contei tbm a minha mae, e me doi ate hj. Segundo pq imaginei como o Lucas estava se sentindo nesse momento, e me doi mais ainda. Tbm escrevo um blog, e construi um texto chamado "Luto", que trata de um assunto semelhante, visto por um outro angulo: http://homoafetivos.blogspot.com/2010/04/luto.html
Lilah,
Concordo com cada palavra da patrícia...qd virá o livro?
Vc escreve magnificamente e não é rasgação de seda!
Pelo visto não sou a única ao me emocionar lendo seu relato desse momento tão difícil mas ao mesmo tempo libertador!
Amei!
Um beijo(estou esperando a conclusão!)
Accácia
Parabéns pela coragem e sensibilidade.
Concordo com a Patricia Daltro, um livro pode ser (mais) uma opção.
E vou ficar a tento para o segundo post.
Nem imagino o quanto foi difícil pra vc Lilah segurar essa barra toda! Não me refiro em relação ao Lucas, mas em relação ao seu outro filho! Lidar com preconceito dentro da nossa própria casa é infinitamente mais complicado do que lidar com a mesmo coisa da porta pra fora! Quero saber o final dessa história...após os questionamentos, qual a reação do seu marido? Como foi pai e filho dialogando? Sei que foi um final feliz, mas, como vc é uma escritora maravilhosa, me deu curiosidade! rs
Bjs
Olá.. alguem postou o link desse blog no twitter e resolvi entrar, achei muito interessante, li alguns posts.. conheço muitos casos semelhantes.
Mas, Lilah, queria muito parabenizar você por ter sido muito mãe e ser mãe... e realmente merecer esse titulo, que não é facil, né?!
continuarei acompanhando..
aproveitando resentimente fiz um video contra Bullying, eu e mais uma amiga, para um projeto chamado "It Gets Better". E queremos realmente passar uma bela mensagem para todos.
segue o link do video.
http://youtu.be/xZIMXBgGuuE?hd=1
espero que goste e compartilhe.
Parabéns novamente.
Noelly Castro
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